segunda-feira, 27 de junho de 2011

Nota sobre a polêmica a respeito dos bombeiros

Parece-me que a polêmica em torno da questão dos bombeiros – polêmica contrapondo, sobretudo, PSTU e LER-QI – foi colocada de maneira unilateral pelas duas posições contrárias que se digladiaram no 1º Congresso da ANEL. Do ponto de vista onde me situo parece que não há apenas antagonismo entre as posições mas, ao contrário, há essencialmente complementaridade. Já que a verdade surge apenas da superação de duas oposições contraditórias, urge fazermos a síntese entre elas de modo a superá-las em favor de uma concepção mais concreta do problema colocado diante da esquerda.


De seu lado, o PSTU defende o apoio e a união dos trabalhadores e estudantes com os bombeiros revoltosos. A questão, para esse partido, não é apoiar os bombeiros enquanto corporação militar, aparelho repressor do Estado, mas apoiar a sua luta, na medida em que ela expressa um potencial revolucionário. Tal potencial revolucionário reside no caráter da revolta dos bombeiros, que, para o PSTU, não assume somente um caráter de luta por salários mas questiona o próprio cerne da corporação – a hierarquia e a subordinação ao poder estatal-militar. Diante disso, o PSTU se posiciona a favor da luta dos bombeiros por se tratar de uma posição estratégica no desenrolar das lutas de classe no Brasil, intentando com isso atraí-los ou aproximá-los da classe trabalhadora e dos estudantes, afastando-os, com isso, da subordinação ao Estado e à ideologia burguesa. Apoiar os bombeiros, nesse sentido, serve aos intuitos da classe trabalhadora de “rachar” o bloco monolítico da corporação militar, desenvolvendo uma certa “consciência de classe” na ala mais progressista dos bombeiros.


De outro lado, a LER-QI não vê – corretamente segundo penso – nessa revolta senão uma insubordinação gerada pela decisão política do governo de Sérgio Cabral de separar os bombeiros da corporação militar e de transferi-los para a Secretaria da Saúde. A questão dos salários se põe aqui em razão do rebaixamento salarial que essa política trouxe, salário já extremamente baixo. Mas, o ponto da questão reside no fato de que, muito ao contrário do que pensa o PSTU, não se trata de uma revolta contra a corporação militar mas uma revolta contra o desligamento dos quadros dos bombeiros desta corporação. Portanto, eles não questionam o cerne da lógica repressora à qual os militares são chamados a desempenhar, mas, antes, se ressentem por não pertencerem mais a esta lógica, a esta corporação. Se colocar a favor da luta dos bombeiros, nesse sentido, seria contraprodutivo para a política revolucionária da classe trabalhadora, com implicações ideológicas, programáticas e políticas nocivas para nossa classe.


Penso que existe um núcleo de verdade em cada uma dessas duas posições divergentes. É verdade que não se trata de uma revolta questionadora da ordem social e política vigente. Mas também é verdade que apoiar uma revolta desse tipo pode ter efeitos estratégicos positivos para a luta de classes. Acontece que tal apoio não pode vir senão mediante uma série de condições. A esquerda deve, nesse sentido, se unir para defender uma posição clara diante dessa questão. Não basta simplesmente um apoio unilateral e sem nenhuma condicionalidade da esquerda à luta dos bombeiros. Como também não basta rechaçá-la de imediato como uma questão pequeno-burguesa, deixando, assim, de aproveitá-la para enriquecer a luta revolucionária. Não podemos deixar que essa questão seja mais uma a fragmentar e fragilizar a esquerda – tanto mais que o grande problema da esquerda é sua incapacidade de se unificar em torno de posições programáticas comuns –, já tão fragmentada e incapaz de se unificar num único punho. Defendo que todas as frações da esquerda se unam através da publicação de uma nota comum, na qual deixe bem claro sua visão e seu posicionamento diante da revolta dos bombeiros no RJ. Nossa defesa dessa luta tem que vir atrelada a uma série de condicionalidades específicas, sobretudo a um posicionamento claro dos bombeiros ante sua função social, isto é, a sua função de aparelho repressor burguês. Os bombeiros devem, portanto, reconhecer que existe como instrumento de repressão e não para a segurança da população. Além disso, é vital que eles se coloquem junto da classe trabalhadora em seus processos de luta (greves, manifestações etc.), apoiando-a ao invés de reprimi-la. Embora os bombeiros não satisfaçam essas condições atualmente, devemos deixar claro que a classe trabalhadora apoiará e participará das lutas que sejam efetivamente revolucionárias, que questionem o papel do Estado enquanto órgão repressor da classe burguesa.
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