terça-feira, 7 de junho de 2011

Esboço para uma crítica à tese da sociedade pós-industrial em Daniel Bell

A obra O advento da sociedade pós-industrial, de Daniel Bell, constitui um bom exemplo de como uma pesquisa essencialmente empirista, erigida sobre a base de dados empíricos puros, pode ser enganosa. Há mérito nessa obra, não se discute isso. O problema é que o método empirista do qual se vale o autor é insuficiente para descer às entranhas da vida social, é incapaz de captá-la como um movimento contraditório e unitário, e deve necessariamente permanecer ao nível fenomênico da realidade. Não restam dúvidas que Bell, ao se prender aos fenômenos empíricos e imediatamente verificáveis, equivocou-se em sua “tentativa de previsão social”. Não procuro julgar aqui até que ponto uma tentativa de previsão social constitui um empreendimento científico válido (Bell toma, nesse sentido, a trilha de Comte e dos positivistas). A história e a atividade sócio-humana já deram repetidas mostras de quão imprevisível é seu devir. O problema que procuro levantar aqui é de ordem teórica e metodológica. A compreensão que o autor desenvolve sobre o desenvolvimento da sociedade contemporânea é essencialmente equivocada porque admite como verdadeiro e irrefutável dados que, vistos de um ponto de vista imediato (sem nenhuma espécie de mediação dialética), não exprimem o movimento sócio-histórico em sua essência, mas, pelo contrário, expressam apenas aspectos desse movimento, aspectos estes que assumem uma significação absolutamente diferente quando vistos de ângulos mais amplos. Só se pode compreender o movimento total, em sua integralidade, se se mediar os dados (os fenômenos empíricos) inserindo-os no processo total da realidade social.


Até aqui nossa argumentação assemelha-se bem frágil e especulativa. Afinal, como operar concretamente com esse ponto de vista dialético? É isso o que pretendemos demonstrar fazendo a crítica aos pressupostos, às hipóteses e à metodologia utilizada por Daniel Bell, cujas conclusões deságuam na equivocada tese da existência de uma sociedade “pós-industrial”.


“Encontramo-nos hoje nos estágios iniciais de uma sociedade pós-industrial. Tornamo-nos a primeira nação, na história do mundo, em que mais da metade da população ativa não se encontra envolvida na produção de alimentos, roupas, habitações, automóveis e outros bens tangíveis” (p.379). Eis aí a tese básica de Daniel Bell. O ponto de partida desta tese é a constatação empírica de um fenômeno socioeconômico atual: “A classe de operários manuais e não-qualificados está-se reduzindo na sociedade, enquanto no outro extremo da série a classe dos trabalhadores qualificados vai-se tornando predominante.” (p.380). Aqui já podemos identificar o primeiro equívoco conceitual do autor. Bell confunde o conceito de classe com o de ocupação ou emprego. Vejamos como ele entende o conceito de proletariado em Marx: “Para Marx, [...] O proletariado clássico era composto dos operários de fábricas, cuja consciência de classe era despertada pelas condições de seu trabalho” (p.171). Esse entendimento está errado. Operários manuais não se constituem numa classe particular, mas correspondem a uma fração da classe proletária. Ao identificar proletariado com operariado, Bell procura impugnar a tese marxista da expansão crescente do proletariado em razão da centralização crescente que o movimento de acumulação do capital impõe. Para Bell, esta proletariazação não ocorreu e, como o que houve na verdade foi uma redução do operariado, que, para ele, representa todo o proletariado, toda a teoria econômica marxista deve ser revista. O que ocorreu historicamente no modo de produção industrial, segundo nos fala Bell, foi o alargamento do trabalho assalariado e não da classe proletária. Ora, nesses termos, Bell pode, livremente, identificar qualquer categoria ocupacional com classe específica. A nova “classe” majoritária na sociedade contemporânea seria, para ele, a dos trabalhadores técnicos e profissionais, incluídos aí os trabalhadores de escritório, cientistas, administradores, educadores etc. Disso decorre que a nova classe que caracteriza a sociedade pós-industrial não estaria mais determinada pelas relações de propriedade mas sim pela posse e controle do conhecimento. O conhecimento é a nova categoria central da sociedade.


A maneira como Bell confunde o conceito de classes com o de grupos ou estratos sociais fica patente quando ele escreve a respeito das transformações estruturais resultantes do desenvolvimento tecnológico da modernidade: “A tecnologia criou uma nova classe, antes desconhecida na sociedade, a dos engenheiros e técnicos, homens que permanecem divorciados do local de trabalho, mas que constituem o ‘pessoal de planejamento’ das operações no processo de trabalho” (p.215, grifo nosso). A existência de técnicos e engenheiros é resultado do alargamento e aprofundamento da divisão social do trabalho e, com ela, da separação entre trabalho intelectual e trabalho manual. A sociedade capitalista radicalizou essa separação. Mas esse grupo não constitui uma classe a parte. Ao longo do livro fica evidente que Bell não tem um conceito nítido de classe, mas utiliza-o arbitrariamente. A classe se define, segundo a definição clássica de Marx, pelo lugar que ocupa nas relações sociais de produção, sendo, portanto, uma relação de propriedade. Se seguirmos o esquema conceitual de Bell, verificaremos que se poderia definir qualquer ocupação socioeconômica, isto é, qualquer especialização no interior da divisão social do trabalho, como uma classe particular. Então, teríamos a classe dos trabalhadores de escritório, a classe dos cientistas etc. Essa conceitualização é frágil, e não deixa apreender a classe como categoria estrutural da sociedade, uma vez que a reduz ao nível imediato da profissão. As profissões estão se alterando no interior da estrutura social sempre e de forma constante, entretanto, sem que isso afete a estrutura de classes. O que importa na definição da classe não é o tipo de trabalho que realiza, mas sim a relação que ela estabelece socialmente no ato de produzir e reproduzir a vida social, isto é, no ato de reproduzir as próprias relações sociais. As relações sociais de classe estão baseadas na propriedade privada, e é, no limite, a relação que as classes estabelecem com a propriedade que a definem enquanto classe. Isso não significa que os membros das classes não integrem grupos e estratos sociais distintos que, por vezes, podem estar distantes da sua realidade de classe. Mas, no nível mais essencial (estrutural) de uma sociedade, o que é determinante são as relações de classe e não as relações intergrupais, as estratificações etc. Qual é a relação que, no modo de produção capitalista, os técnicos e engenheiros estabelecem com a propriedade? São trabalhadores assalariados qualificados, detentores de um certo conhecimento específico, que são postos a serviço da valorização do capital. Nesse caso são, a despeito da magnitude de seus salários, proletários. Nada impede que, suponhamos, um engenheiro eletrônico de uma grande empresa (um assalariado, portanto) logre acumular certa quantia de capital com a qual ele crie sua própria empresa. Nesse caso, ele deixa de ser engenheiro para se tornar capitalista? Ora, do ponto de vista da sua relação com a propriedade, sim, pois ele torna-se agora detentor de uma quantia de capital; contudo, do ponto de vista do seu conhecimento (e da sua profissão), não, uma vez que ele continua sendo um técnico detentor de um conhecimento específico e qualificado. Esse exemplo deixa evidente as armadilhas teóricas quando se confunde classe com outros conceitos ligados à produção social.


A incapacidade de Bell em pensar de termos totalizantes, devido à sua metodologia empirista e fragmentária, leva-o amiúde a incorrer em outros equívocos conceituais – equívocos bastante comuns e, diga-se de passagem, aceitos pela teoria social contemporânea. É assim que ele identifica frequentemente o conceito de sociedade com o de nação. Ele fala, por exemplo, em sociedade americana, contrapondo-a à sociedade japonesa, ou mesmo à sociedade européia etc. Já aí fica explícito a falta de rigor conceitual em relação a uma categoria fulcral da ciência social. Como é possível que o autor não tenha uma definição rigorosa dessa categoria? Se ele define-a como nação, então porque fala, às vezes, de sociedade ocidental? Eis aí um grande problema teórico-metodológico que passa quase sempre em brancas nuvens aos críticos. Estado-nação, ou somente nação (de um ponto de vista mais cultural que jurídico-político), são categorias distintas da de sociedade. E para se resolver esse problema não adianta afirmar que uma sociedade constitui-se por um conjunto mais ou menos definido de relações sociais, de regras e valores culturais, de um aparelho político juridicamente (seja ele normatizado em leis positivas ou fundadas nos costumes) reconhecido pelos seus membros etc. Tudo isso continua ainda muito abstrato. Explica tudo e não explica nada. Por exemplo: o que são relações sociais? São relações entre classes ou entre indivíduos? Dizem respeito à estrutura produtiva da sociedade ou são relações jurídicas, culturais etc.? Relações sociais são baseadas nos costumes ou nos valores? Ao contrário do que possa parecer, essas definições conceituais lapidares, concisas e “precisas” mais confundem do que explicam. Segundo o materialismo histórico, o que define uma sociedade é, em última instância, as relações sociais de produção que os indivíduos, estruturados em classes, estabelecem entre si no ato de reprodução da vida social. Nesse sentido, embora ainda existam pequenas sociedades relativamente isoladas no mundo, a rigor atualmente existe uma única sociedade, a sociedade capitalista. Isso não significa descurar o fato concreto de que essa sociedade apareça, aqui e ali, numa heterogeneidade de formas particulares, em razão de diferentes determinações culturais, geográficas, históricas etc. Igualmente, não significa diluir as fronteiras nacionais num único “sistema-mundo”. Cada país insere-se, por razões múltiplas, diferentemente na trama da divisão internacional do trabalho. Significa apenas que desse postulado teórico deriva um corolário metodológico: não se compreende uma realidade particular (nacional, regional etc.) senão inserindo-a no quadro mais amplo e global das relações sociais capitalistas de produção. Este é, em suma, o equívoco fundamental de Daniel Bell.


Tomar uma nação ou país como uma sociedade fechada (ainda que ela se relacione com outros países, tal relação, para o autor, se dá entre dois sistemas fechados entre si, são relações exteriores) permite a Daniel Bell uma série de equívocos teóricos e análises empíricas equivocadas. Daí porque certas “sociedades” ainda se encontrem no estágio industrial (como a extinta URSS) ou pré-industrial (como o Terceiro Mundo agrário), enquanto os EUA já constitui um exemplo de sociedade pós-industrial. Daí porque ele assume que os problemas inerentes à relação capital-trabalho já foram (uma vez que ele olha para a situação isolada dos EUA), em certa medida, superados, sendo que o eixo sobre o qual gira as novas necessidades sociais não é mais as demandas pela distribuição de renda equitativa, mas sim os problemas sociais, ambientais e de planejamento futuro da sociedade.
Vale lembrarmos também o significado que o conceito de mudança social assume em Bell. Partindo de Durkheim e Parsons, o que faz dele um sociólogo funcionalista, Bell concebe as transformações nas estruturas sociais como função da especialização exponencial que, por sua vez, resulta do aumento de tamanho do organismo. Essa concepção é fundamentalmente organicista na medida em que retira da ação humana a condição de sujeito deste processo; assim como as células, aos homens só resta acomodarem-se diante das reestruturações que o aumento de tamanho do corpo social exige. A teoria dos subsistemas de Parsons, o qual, por sua vez, bebe do organicismo de Durkheim, é tomada por Bell como explicativa do processo de mudança social: “à medida que as instituições aumentam de tamanho, assim como as funções que lhes cabe desempenhar, vão sendo criados subsistemas especializados e distintos para lidar com essas funções. Com o desenvolvimento dos subsistemas especializados, passamos a encontrar também novos problemas distintos de coordenação, hierarquia e controle social.” (p.197) Essa concepção empirista e organicista da realidade sócio-humana é aceita metodologicamente por Bell: “Esses dois conceitos – o ritmo da mudança [que é exponencial] e a mudança de escala [do quantitativo para o qualitativo] – são as idéias em torno das quais deve girar a discussão dos componentes centrais e estruturais da sociedade pós-industrial, as dimensões do conhecimento e da tecnologia.” (p.199)


A verdade é que o empirismo de Bell não deixa-o em condições de apreender a sociedade como um todo concreto e unitário. Assim, ele separa conceitualmente as sociedades em três dimensões independentes: as estruturas sociais (nível da produção, do mercado, da família), o Estado e a cultura.


A crítica de Bell ao que ele chama de “modelo de poupança” (ou seja, a lógica própria do capitalismo, a saber, o aumento da produtividade como condição de maiores lucros, e a satisfação de necessidades centradas no indivíduo e não na sociedade como uma coletividade) é estritamente moralista. Bell faz a crítica dessa lógica (exterioridades da produção econômica, consumo individual privado etc.) como que determinada por um sistema de valores culturais. Uma vez transformado esses valores, isto é, uma vez mudada a concepção das pessoas, muda-se a sociedade como um todo. As grandes corporações capitalistas, portanto, devem tomar consciência dos impactos sociais e ambientais para mudarem suas práticas econômicas. “em contraposição ao modelo da idéia de poupança, pode-se especificar [...] um modelo sociologizante, ou um esforço para julgar as necessidades de uma sociedade de uma forma mais consciente e [...] para fazê-lo tomando como base alguma concepção explícita do ‘interesse público’” (p.318). Ora, a lei que preside o movimento da sociedade capitalista não pode ser alterada pela simples transformação da consciência, senão pelas transformações nas próprias relações sociais que reproduzem tal lei. Essa lei é a lei do valor. Não existe interesse público para ela, mas apenas seus próprios interesses, qual seja, a reprodução sempre ampliada do capital. Aos capitalistas, a classe que personifica essa lógica, só resta subsumir-se a essa necessidade. Necessidades que, é bom lembrar, não são necessidades humanas, mas necessidades do capital. A produção de bens e serviços conforme a lógica capitalista não visa como fim a satisfação das necessidades humanas e sociais mas tão-somente constitui um meio para a criação e apropriação de mais-valor. Bell se equivoca ao afirmar que a produção econômica capitalista visa somente ao consumo individual privado, negligenciando as necessidades sociais; nem mesmo o consumo individual privado representa um fim para o capital, mas é somente o meio pelo qual ele se autoreproduz de modo sempre ampliado. Satisfação de necessidades é meio; acumulação de capital é fim. A separação que Bell postula entre a esfera política e a esfera econômica também permite que ele erre ao defender que a mudança no sistema de valores pode ser aplicada pelo Estado, responsabilizando as empresas socialmente irresponsáveis etc. “Trata-se de ações que devem ser empreendidas coordenadamente, seguindo os canais públicos. Podemos debitar o preço da poluição do ar às suas fontes, [...] a fim de forçar os responsáveis a reduzir a poluição; ou podemos utilizar as verbas para adotar medidas corretivas. Da mesma maneira, o traçado das estradas, o planejamento das cidades, o controle dos congestionamentos, a organização da assistência sanitária, a eliminação da poluição ambiental, o apoio à educação, - tudo isto passa a constituir, necessariamente, a matéria dos programas de ação pública, do interesse público [...]” (p.319). Nada mais enganoso. O Estado é, precisamente, a instituição que agrega e generaliza os interesses próprios ao capital. Todo o erro de Bell se funda no pressuposto de que os efeitos negativos das decisões econômicas e políticas resultam de erros, de irracionalidades. “A tomada de decisão pública tem muita probabilidade de ser tão irracional e contraproducente quanto a tomada de decisão particular. O problema sociológico de maior importância que temos pela frente será provar nossa capacidade de antever os efeitos das transformações sociais e tecnológicas, e de elaborar modos de ação alternativos, de acordo com as diversas avaliações das finalidades [...]” (p.319). Pelo contrário, a decisão (privada e política) que decide pela manutenção de uma cadeia produtiva social e economicamente predatória em algum setor da economia não constitui uma irracionalidade, uma falta de previsão! Aceita-se os efeitos negativos porque o mercado e o Estado procuram satisfazer os fins de acumulação do capital e não satisfazer as necessidades humanas e sociais . A história tratou e tratará de demonstrar a banalidade e impossibilidade dessas ações moralizantes.


Esse ponto de vista permite a Bell fazer declarações tão doces e inocentemente infantis quanto esta: “Na lei corporativa tradicional, a propriedade é definida como coisa (res); mas a lição que as sociedades anônimas aprenderam nestes últimos trinta anos [1940-70] é a de que, embora produzindo bens, a sociedade é composta de pessoas e que não se pode tratar as pessoas – pelo menos o pessoal administrativo e os gerentes! [sic] – como coisas [supersic].” (p.323). Essa declaração é uma bobagem sem limites, e expressa unicamente a mentalidade apologética do autor. Primeiro: não é somente do ponto de vista da sociedade anônima, isto é, das grandes corporações características do capitalismo monopolista, que a propriedade é tratada como coisa; o produto ideológico básico da sociedade capitalista é identificar propriedade como coisa, como fator de produção, e não como uma relação social, cuja instituição é, evidentemente, garantida pelo direito. Segundo: eu gostaria que Bell demonstrasse onde é que está acontecendo essa sublime compreensão dos capitalistas de que não se pode tratar as pessoas como coisas? Pois é precisamente ao contrário; cada vez mais pessoas, isto é, cada vez uma camada maior da população está sendo não apenas tratada mas tornada uma coisa, porque cada vez mais pessoas estão se assalariando e se proletarizando, tornando-se, portanto, mercadorias, ou seja, tornando-se coisas. E, nesse sentido, pouco importa a subjetividade do empresário, acionista, executivo etc.; pouco importa se ele acredita na humanização de seus funcionários, na necessidade de conferir-lhes meios dignos de vida etc. O que importa é que eles personificam objetivamente as necessidades do capital, e, para o capital, força de trabalho é mercadoria, é coisa. Eis aqui um belo exemplo do erro crasso que é tomar a realidade social pelo o que os homens acreditam que ela seja, ao invés de tomá-la pelo que ela efetivamente é.


Mas, espere, fica ainda muito melhor. Ao constatar que as instituições tradicionais da vida social foram em grande medida ocupadas pelas corporações, cuja dimensão passou a abranger, sobretudo, a família – ou seja, que o capitalismo ocupou praticamente todas as esferas da vida social, subjugando a vida dos indivíduos às suas necessidades –, Daniel Bell afirma que as corporações (os grandes capitalistas) estão sendo capazes de proporcionar “um modo de vida satisfatório para os seus membros”. E ele continua, a partir do seu esquema abstrato de modelo de poupança e modelo sociologizante, afirmando o seguinte: “veremos que nos últimos trinta anos a sociedade anônima têm-se encaminhado continuamente, em benefício de quase todos os seus empregados, em direção ao extremo sociologizante da escala. Basta observar, na porcentagem crescente dos ‘custos das participações nos lucros’, o índice dessa alteração: férias, pagamento aos inválidos, seguros de saúde, pagamentos suplementares para os desempregados, pensões, e assim por diante.” (p.324). Dessa forma, Bell procura esquecer totalmente que essas conquistas não foram concedias aos trabalhadores por graça da burguesia, mas foram-lhes conquistas pela luta. Além disso, como um bom empirista que é, Bell abstrai completamente as determinações do movimento histórico, sendo, portanto, incapaz de compreender que a melhoria das condições de vida dos trabalhadores (dos países de capitalismo avançado ) foi um fenômeno proporcionado pela rápida acumulação do capital nas três décadas que se seguiram ao pós-segunda guerra, que seriam paulatinamente revogadas nas décadas seguintes (ou seja, de que as conquistas trabalhistas dentro da ordem capitalistas são dependentes do movimento histórico do capital e que, portanto, estão sujeitas às suas necessidades de acumulação). Da mesma forma, é igualmente incapaz de compreender que esse foi um fenômeno restrito aos países capitalistas avançados (e imperialistas) e que um sem-número de trabalhadores superexplorados nos chamados (eufemisticamente) países em desenvolvimento sustenta, pela divisão internacional do trabalho, uma melhora nas condições de vida dos trabalhadores do Primeiro Mundo. E Bell coroa sua argumentação com a seguinte pérola: “Isto tudo era historicamente inevitável. Na medida em que as fontes tradicionais de esteio social (a cidadezinha, a igreja e a família) se desagregaram na sociedade, seu lugar foi sendo ocupado por outros tipos de organização, sobretudo pela sociedade anônima, e estas novas organizações transformaram-se inevitavelmente em palco para as exigências de segurança, justiça e estima. De modo que pensar na sociedade anônima comercial como se se tratasse simplesmente de um instrumento econômico é enganar-se totalmente quanto ao significado das mudanças sociais ocorridas durante este último meio século.” (p.324). O autor continua se superando nessa linha argumentativa extremamente apologética. Enfim, é inútil continuar demonstrando o absurdo das posições de Daniel Bell. Quase sempre sua argumentação baseia-se numa petição ética (frenquentemente, por exemplo, ele contrapõe justiça social ao lucro e à produtividade, exortando a sociedade para que coloque mais peso na balança da justiça do que na do lucro ), petição à qual o mercado e o capital fazem ouvidos moucos. Não significa que, às vezes, questões morais não influenciem os processos socioeconômicos da sociedade capitalista, contudo, serão sempre anódinas, jamais determinantes.


As coisas conseguem ficar ainda piores antes do fim desse capítulo. Por fim, chega mesmo o autor a defender que a propriedade privada é uma “velha ideologia” que sobrevive mesmo quando “A moderna sociedade anônima perdeu boa parte das características históricas do capitalismo tradicional” (p.330), este sim baseado na propriedade privada. Segundo acredita Bell, a propriedade privada hoje em dia “não passa de uma ficção legal” (p.330), ou seja, é reconhecida juridicamente, mas não encontra respaldo na realidade social concreta. Vejamos como ele argumenta: “Os verdadeiros proprietários estão direta e psicologicamente envolvidos com os destinos da empresa; e esta descrição ajusta-se melhor aos empregados da corporação que a seus acionistas. Para esses empregados, a sociedade anônima é uma instituição social onde eles vivem. Política e moralmente, não se poderia pensar na possibilidade de suas existências ficarem à mercê de um especulador financeiro. [Parágrafo] Em outras palavras, a sociedade anônima pode ser uma instituição de empresa privada; na realidade, porém, ela não é uma instituição de propriedade privada. [...] E se a posse é, em grande parte, uma ficção legal, dever-se-ia adotar uma atitude mais realista com relação a ela. Os acionistas podem ser tratados, não como “donos”, mas como pretendentes legítimos a uma parte fixa qualquer dos lucros de uma sociedade anônima – e nada mais do que isso.” (p.331). E que mais os acionistas poderiam querer? De todo modo, assim fica determinada a parte “legítima” do trabalhador assalariado, o salário, conforme sua “parte” na “propriedade” da corporação. E, uma vez que a propriedade, segundo Bell, agora está determinada pelo envolvimento dos trabalhadores “com os destinos da empresa”, os trabalhadores (assim como os gerentes, executivos etc.) tornam-se os verdadeiros proprietários! Preciso comentar esse absurdo ideológico? Acho que não . Cito apenas mais uma passagem: “a própria instituição da propriedade está sofrendo uma revisão radical, e de uma maneira significativa. Na sociedade ocidental, durante vários séculos, a propriedade, como proteção dos diretos privados à riqueza, foi a base econômica do individualismo. [...] Na vida moderna, a propriedade modificou-se de duas maneiras distintas. Uma delas é elementar: a propriedade individual passou a corporativa, e já não é controlada pelos proprietários e sim pelos administradores.” (p.400). Donde conclui nosso iludido autor que a propriedade agora é coletiva e que os funcionários, cuja vida está mais diretamente ligada à empresa, são agora os verdadeiros donos e responsáveis por ela.


Por trás de todo esse discurso ideológico, reside a crença do autor de que o proprietário de capital é diretamente responsável pelas decisões que ele toma a respeito dos princípios pelos quais sua empresa irá operar. Assim, cabe a cada capitalista, acionista, diretor-executivo etc., tomar um outro ponto de vista, mais adequado à sociedade pós-industrial nascente, ou seja, um ponto de vista sociologizante, cujo foco recai em primeiro lugar sobre as necessidades sociais e ambientais da coletividade como um todo, ao invés de se concentrar inteiramente na produtividade e no lucro, como assim procediam os capitalistas da sociedade passada (industrial). Ora, o pressuposto desse ponto de vista é que a sociedade não constitui uma totalidade dialética, mas assemelha-se mais a uma miríade de ações sociais individuais (como em Weber). Embora ele conceba metodologicamente a sociedade como um sistema composto por vários subsistemas (a teoria dos sistemas de Parsons), e que, portanto, a alteração de um elemento leva à alteração do sistema como um todo, não obstante, esses sistemas, no fundo, são, para ele, compostos por ações individuais. Essa concepção da sociedade pode ser rastreada até a sociologia de Durkheim, matriz teórica de Bell. Com semelhante teoria, Bell fica, obviamente, incapaz de compreender o porquê de um capitalista “humanista” ter necessariamente de fracassar ao propor um “capitalismo mais humano”. Ele necessariamente será esmagado pela concorrência, simplesmente por não respeitar a lei do valor, lei que não vale como um princípio cultural e subjetivo de cada indivíduo, mas lei que vale como princípio estruturante da sociedade capitalista e que opera ao nível das relações de classe. Para usarmos a terminologia do autor, de nada adianta o fato de que os indivíduos ou um grupo deles, ou mesmo um subsistema todo, venha a mudar seu ponto de vista, seus valores, e com isso a alterar o sentido das suas ações sociais para que, com isso, a lógica do sistema como um todo comece a se reestruturar. Isso porque o sistema necessariamente deve se rearticular em favor da lógica global que subjaz a ele e não em favor de uma lógica particular que procure se impor. Existe aí uma verdade parcial. É evidente que a modificação de uma das partes implica na modificação do conjunto. Entretanto, a modificação de uma parte não se faz em favor da sua lógica particular, mas em favor da lógica do todo, que procurará direcionar essa modificação de maneira a rearticular-se sem desnaturar a lógica essencial, do sistema como um todo. Daí porque as muitas transformações já sofridas na sociedade capitalista fizeram água: foram reapropriadas e rearticuladas em favor da lógica essencial do sistema capitalista como um todo. Somente um pensamento dialético permite compreender que a lógica que estrutura uma realidade social determinada é totalizante, não opera, portanto, ao nível da consciência individual, mas sim ao nível das estruturas de classe. É claro que os indivíduos, organizados em classes, grupos, estratos etc., são os sujeitos que subjetivam as estruturas (as relações sociais), mas estas são, do ponto de vista da sociedade, a força objetiva que determina suas existências e lhes impõe sua lógica.


Um dos pilares teóricos em que se sustenta a tese belliana de que o poder político está sendo transferido (em partes) dos políticos para as classes técnicas e profissionais está na exigência da racionalidade. Bell tem implícito que o papel cada vez mais preeminente de controle e direção exercido pelos técnicos decorre de que a sociedade como um todo exige cada vez mais decisões racionais e cientificamente corretas. A dificuldade reside em que, nesse intercuzamento entre ciência e política, a dimensão política, que, no final, constitui a esfera encarregada de decidir e agir, opera conforme necessidades e princípios próprios (acordos, negociações, valores, costumes etc.) que nem sempre se coadunam com as exigências do saber técnico e científico. A atividade política não é redutível à atividade científica e técnica. O problema da sociedade futura, portanto, será o de equacionar a relação entre a classe que detém o conhecimento de como agir e a classe que detém o poder de agir . No que diz respeito à teoria sociológica, essas novas condições impõem que: “Em lugar de modelos que pintem o governo como uma espécie de árbitro, de cuja mediação dependem os dados fornecidos pelos grupos de interesses conflitantes, o que permite que eles venham à tona ao serem produzidas as decisões, um quadro [teórico] mais adequado teria de considerar a presidência como um sistema capaz de exercer livremente a sua ação, escolhendo até mesmo os interesses que poderiam entrar como dados para as decisões [isto é, as opiniões dos técnicos e cientistas], e o próprio executivo entrando em negociações – tomando como base as decisões tecnocráticas – com os diversos grupos de interesses da sociedade.” (p.349). “Por conseguinte, o problema central da sociedade pós-industrial é a relação entre a decisão tecnocrática e a política” (p.376). Implícita nessa posição está a crença de que os interesses dos técnicos e cientistas são basicamente interesses “desinteressados”, isto é, voltados para o desenvolvimento social. “os problemas da sociedade comunitária e pós-industrial não são de ordem técnica, e sim política, porque, muito embora a natureza das novas complexidades implique uma vasta categoria de técnicas sociais de um novo tipo, os valores é que constituem as questões essenciais. Só quando for dado aos homens decidir o que querem, poderemos passar para a questão de como executar as tarefas. Por conseguinte, o problema central da sociedade pós-industrial é a relação entre a decisão tecnocrática e a política” (p.376)


Quanto ao conflito social, este é transferido da relação capital-trabalho (entre o capitalista e o proletário) para a relação entre os profissionais, que detêm o conhecimento técnico e informacional, e o “populacho” (em suas próprias palavras). Ora, isso é bastante estranho, porque entra em contradição com a argumentação anterior. Se Bell acredita piamente na substituição dos trabalhadores industriais (fabris) por “profissionais e técnicos”, os quais ele atribui à classe dos trabalhadores dos serviços e dos escritórios; e se esses “profissionais e técnicos” deverão, segundo a previsão do autor, constituir a imensa maioria dos indivíduos de uma sociedade pós-industrial; então, surge a questão: quem fará o papel de populacho? Se todos (ou a grande maioria) serão técnicos, cientistas, profissionais ligados à área do conhecimento e da informação etc., efetivamente não sobra estrato algum da população para ocupar o lugar de brutos e ignorantes (o populacho) senão uma ínfima minoria que ainda subsistiriam nos setores industriais e agrícolas. Todavia, como a proporção entre eles, conforme a estimativa de Bell, será quase que totalmente em favor dos profissionais e técnicos, como poderia haver um grande conflito entre eles? Vê-se, por aí, o quão apologética é a tese de Daniel Bell. Ele olha apenas para os países (amiúde ele denomina países por “sociedades”, o que é um absurdo sociológico) altamente avançados economicamente, observa como a indústria vem definhando e cedendo espaço para outros setores (enquadrados genericamente na categoria “serviços”), e, a partir deste dado empírico, afirma: “eis aí a prova insofismável da transformação das antigas sociedades industriais em direção a sociedades pós-industriais”. O que acontece com o resto do mundo, pobre e subdesenvolvido? Bom, segundo Bell, eles literalmente se encontram num estágio inferior da evolução; são sociedades industriais e pré-industriais. É desnecessário demonstrar o quanto essa afirmação é uma tolice; de resto, Bell retoma aqui – se conscientemente ou não pouco importa – a velha, repisada e carcomida tese evolucionista de que cada sociedade passa por certas etapas idênticas de evolução social até chegar à forma positiva (no caso de Bell, até chegar à forma pós-industrial). O que é flagrante nessa posição do autor é que ele, como bom empirista, é obrigado a ater-se metodologicamente a uma teorização fragmentada da realidade, pois, caso considere o desenvolvimento social de cada país dentro de uma perspectiva totalizante, ele terá, inevitavelmente, que se confrontar com as relações de dependência e interações econômicas que fazem com que a economia mundial seja uma só, ou seja, terá que admitir que a lógica da reprodução econômica do capitalismo se realiza a nível global e não apenas nacional, e que essa lógica determina, em última instância, quem é “pré-industrial” e quem é “pós-industrial”. Percebido isto, ele deveria ter de admitir que jamais existirá uma sociedade global inteiramente pós-industrial porque os poucos países que têm a sorte de figurarem na situação de “pós” sustentam esse privilégio com base na situação daqueles explorados países pré-industrializados. Em suma, se Daniel Bell não fosse um crasso empirista, ele teria que admitir, forçosamente, que os diversos países se imbricam num sistema social único, e que a lógica que os relacionam entre si é a do desenvolvimento desigual e (porém) combinado, e que, enfim, a manutenção da condição de dependência da grande maioria da população mundial em relação ao grande centro econômico (agora cada vez mais financeiro e menos industrial) é conditio sine qua non para que possa existir um punhado de países auto-intitulados pós-industrial.


Mas o conflito, sempre segundo Bell, não se dá somente entre os profissionais altamente qualificados e o “populacho” (seja lá quem for). Na verdade, para sermos justos, ele se refere mais ostensivamente a outros atores envolvidos nesse conflito. Seguindo seu instrumental teórico (os princípios axiais), o conflito central (axial) com o qual uma sociedade pós-industrial teria de lidar seria entre aqueles profissionais e a “classe” política. Aqui novamente se revela a empiria de Bell, e a concepção fragmentária que ele tem da realidade social. O autor não concebe as diferentes esferas da realidade social como constitutivas de um todo integrado e unitário, mas como setores mais ou menos isolados e autônomos que se relacionam horizontalmente; isto é, na há uma esfera determinante e fundante da sociedade, pois cada uma delas se articula entre si de um modo mais ou menos independente e segundo determinações próprias. Assim, o Estado, a priori, responde por si mesmo (seus interesses e necessidades), e somente se relaciona com a economia, a cultura etc., segundo a lógica que lhe é própria. Não há determinação exterior. Retalhados e apartados desse modo cada parte do tecido social, o conflito social que se estabelece na sociedade pós-industrial não fica restrito às relações de classe, ou, para usar os conceitos de Bell, não se limita à estrutura social, mas opera entre essa estrutura (e as “novas” classes que a constituem) e o Estado. A questão põe nesses termos: como os profissionais, cientistas, educadores etc., constituem o estrato que detém o saber ou a informação (princípio axial da nova sociedade), mas, todavia, não são eles que tomam as decisões, o conflito se instaura entre quem tem o saber para tomar decisões e quem pode tomá-las mas não detém o conhecimento. Daí porque para Bell a burocracia administrativa do Estado (os técnicos, especialistas etc.), assim como a intelligentsia que se encontra fora do Estado, concorrerá com os políticos pelo poder, isto é, pela tomada das decisões. Segundo conclui Bell, o problema do poder será de capital importância na sociedade do futuro. Ora, este sempre foi um problema capital. O erro do autor está em como ele concebe esse problema. Não posso senão enumerar aqui rapidamente alguns pontos: o Estado não tem autonomia própria mas responde e está determinado pelos movimentos do capital em seu processo reprodutivo; é claro que a intelligentsia (entendida como o estrato social diretamente envolvido com a pesquisa e educação) de qualquer sociedade exerce certo peso no exercício do poder, entretanto, numa sociedade capitalista, essa influência está limitada pelas necessidades de acumulação do capital, o que significa dizer que o poder (as decisões) se exerce em favor da acumulação de capital e não no sentido de considerações de qualquer outro tipo, sejam elas necessidades humanas, ambientais, etc.


À guisa de conclusão podemos dizer o seguinte: a questão, para Bell, é que, embora seja difícil de precisar exatamente em que consistirá a sociedade pós-industrial, é possível entrever as problemáticas principais em torno das quais ela se organizará: a sociedade não será mais centrada no indivíduo, mas será comunitária; o conflito não se dará mais entre capital e trabalho, mas entre quem detém o conhecimento técnico e científico e quem não o detém; a sociedade, por isso mesmo, será uma sociedade da informação e não da produção; o consumo não estará mais totalmente voltado para o consumo particular e individual, mas para a comunidade. Como bom empirista que é, Bell baseia essas afirmações em dados estatísticos, digamos, puros. Por um lado, a classe dos trabalhadores manuais e não-qualificados está decrescendo e, como na agricultura, deverá se tornar mínima, cedendo lugar à classe dos trabalhadores intelectuais e qualificados. Essa idéia de que trabalhadores de escritório e administradores são qualificados por si só já constitui um mito, como bem demonstrou Bravermann, em trabalho contemporâneo ao de Bell. Por outro lado, Bell vê as estatísticas de indivíduos com nível educacional superior e infere, a partir daí, que a sociedade futura será a sociedade do conhecimento técnico e científico. Como as estruturas sociais e o Estado são esferas separadas e autônomas, Bell crê que o poder social está saindo da esfera da economia e se concentrando cada vez mais no Estado. Entretanto, as exigências comunitárias, sociais e ambientais marcarão as novas ações políticas, em detrimento do indivíduo, egoísta e privatista típico da sociedade industrial. Todas essas teses são bastante questionáveis, como procuramos demonstrar com a nossa argumentação.


BIBLIOGRAFIA


BELL, D. O advento da sociedade pós-industrial: uma tentativa de previsão social. São Paulo: Editora Cultrix, 1977.
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