quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Pelo fim da paciência bovina

Estou perdendo a paciência. Aquela paciência que nos torna seres passivos, que bovinamente pastam ao longo de uma vida inteira. E isso me preocupa. Como ficará, daqui para frente, meu ajuste, enquanto indivíduo, ao mundo que me rodeia?

Ontem fui ao banco: o mesmo atendimento vagaroso de sempre; as mesmas faces deprimidas, angustiadas, e, acima de tudo, ajustadas. Vejo vários computadores, sendo que a maioria deles desocupados. Onde estão os bancários? Foram demitidos ou nem sequer contratados. Parte do grande desígnio do Capital. A qualidade do serviço pouco importa – se é que usura pode ser considerado um serviço –, o que importa, do ponto de vista do grande banqueiro, são lucros, de preferência cada vez maiores.

“Encaminhe suas reclamações ou sugestões por escrito aqui”. Não quero encaminhar minha reclamação por escrito, muito menos aí. Quero discutir com uma pessoa de carne e osso, que tenha a faculdade da fala, que possa me responder. Não quero encaminhar minha crítica através dos canais pré-estabelecidos para tanto. Não quero ser colocado dentro de uma caixa; não sou uma coisa, não sou um fator, nem uma estatística: sou um ser humano. Quero minha humanidade de volta.

São esses mecanismos, esses canais institucionalizados que estupidificam as pessoas. Fazemos o que nos mandam fazer, ou fazemos pelos meios que foram já pré-determinados para isso. Eu quero quebrar aqueles computadores. Eu quero gritar, xingar, mandar tudo à merda. Não, não quero votar em você, e você não é meu amigo; muito menos eu te conheço, portanto, não sei do seu trabalho e do seu suposto histórico de luta. Quero quebrar a sua cara na porrada, é esse o meu desejo enrustido.

O respeito à autoridade; respeito tácito, mas que não concordo. Por que simplesmente o trabalhador não parte para as vias de fato contra a pilantragem juridicamente garantida do patrão? Por que o deputado corrupto não é linchado publicamente nas ruas? Por que o pobre não depreda o ônibus superlotado que o carrega todo dia para o martírio? Por que, por que, por que? Por respeito, por medo que esse respeito inspira. A hierarquia e a autoridade são instrumentos muito eficazes na domesticação das pessoas. Impedem que tomemos uma reação ativa contra esse sistema que nos oprime.

Obviamente, a polícia é, nesse sentido, mais emblemática; aliás porque ou se “respeita” ou se entra no cacete (respeito entre aspas porque esse não é o verdadeiro respeito). Mas o “dôtor” político, o “dôtor” advogado etc., que são senão parte de um estamento que reivindica para si a condição de autoridade e, com ela, a prerrogativa de serem ouvidos e acatados? E efetivamente são. Quem questionaria a priori a integridade de um político? E, mesmo depois de revelado tal ou qual embuste, quem se atreveria a imprimir-lhe, de forma consequente, a alcunha de ladrão? O crime do político, de fato, para essa sociedade desvirtuada é muito diferente e menos odioso que o crime cometido por um moleque trajando andrajos e chinelo-de-dedo.

Os homens-bestas espraiam-se por aí. São, sem dúvida, a grande maioria, mas enxergam com os olhos da minoria, vêem o mundo através da ideologia dos dominantes. Os escravos eram seis, sete vezes em maior número que os senhores durante o Brasil colônia. Fizeram revolução? Revoltaram-se? Algumas poucas vezes e apenas no século XIX, influenciados atrasadamente pelos princípios do liberalismo democrático europeu. Mentalidade de colonizado. Mas, também é verdade, que essa mentalidade não é privilégio dos povos colonizados. O mundo todo é uma colônia, colônia de um deus mundano que sorve nossa humanidade até à última gota.

As avenidas, cruzamentos e rotatórias estão apinhadas de pessoas-placas, pessoas-bandeiras, pessoas-outdoors. Já que a lei eleitoral proíbe os candidatos de poluírem a cidade com o lixo de suas propagandas políticas, eles se viram na contingência de alugar homens e mulheres para fazerem a vez de postes. O dinheiro é mágico, e tem também essa capacidade, dentre muitas outras, de transformar pessoas – abracadabra – em postes! E não será difícil houver por aí que isso é um avanço, que abre um novo mercado temporário onde essas pessoas-excluídas podem ser reabsorvidas na forma de pessoas-postes. Esse é o tipo de oportunidade que o capitalismo alardeia como sendo a vantagem do seu sistema social. Os exemplos são infindáveis.

Não quero aguardar um minuto, não quero ser transferido para outro setor, não quero ouvir essa maldita música de novo! Não quero falar com o supervisor! Não quero ser tratado como um bandido toda vez que tiver que entrar em algum banco! Não quero doar dinheiro pra sua campanha pelo fim da fome e pela paz mundial! Não quero participar da farsa burguesa do processo eleitoral! Etc., etc., etc...

É, realmente, estou ficando sem paciência.
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