sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A morte alimenta-se da vida (e o indivíduo sobrevive)

Estamos cansados de nos machucar. É sempre a mesma dor que tem suas raízes na culpa. A culpa é o câncer que nos devora por dentro. Aqueles mais sinceros de coração são os que mais sofrem com isso. Impotentes diante da barbárie generalizada, eles pagam o pecado assim como Cristo na cruz. Crucificados são aos milhares, todos os dias. Gente sem identidade, que não se reconhece no mundo. A tristeza é a única benção distribuída aos filhos dos homens.


Os relacionamentos amorosos, entre homem e mulher, pais e filhos, amigos, são sempre auto-destruidores, alimentados pelo cão do hedonismo para o qual nossa alma é lançada como pedaço de carne. As relações humanas alimentam a fúria de um individualismo que a tudo devora; um individualismo que não tem fundo, não importa o quanto se alimente. Nunca estaremos plenos de sentido, nunca, nessa existência medíocre, nunca seremos capazes de compartilhar abnegadamente das infindáveis histórias particulares. É sempre a mesma ganância por detrás de todo movimento real; seja a ganância material, amorosa, espiritual, etc. É sempre o mesmo ego, um mar de egos, enchendo-se e enchendo-se, até transbordar – um dia irá.


Eu devoro existências alheias, porque elas me pertencem privadamente. Onde está a essência coletiva dessa merda? Onde encontro a omnilateralidade humana? Não consigo me relacionar com a realidade viva senão para sugá-la até os ossos. Quero sugar-lhe ao máximo sua existência vital, seu conteúdo rico e vivo para encher minha alma vazia e morta. Sou um vampiro; vago como um morto condenado a viver entre os vivos. Mas haveria alguém vivo entre nós? Para onde vai o fluxo da vida se não está vindo desaguar em nós, na humanidade? Em algum lugar a vida se extravia e, nesse ínterim, só resvalamos em algo que lembra muito ela (ou lembra simplesmente porque desconhecemos sua forma). Só uma leve luz bruxuleante que acena do horizonte. Acho que nunca teremo-la por perto para nos aquecer.


Hoje, deixar-me-iam a sós – se pudessem. Deixar-me-iam apodrecer na solidão só para terem um pouco mais do meu sangue, uma gota que seja. Ninguém está verdadeiramente interessado na companhia de outrem. Querem absorver o outro dentro de si de forma a anulá-lo em toda a sua existência independente, em toda a sua essência autônoma. Ou essa essência autônoma sê capaz de existir enquanto pluralidade, ou cada indivíduo devorará outras individualidades que inadvertidamente acabarem cruzando seu caminho. Não há uma sequer pessoa nesse mundo que consiga viver a plenitude da existência humana. É esse particularismo interesseiro, muitas vezes tido como sóbrio, que me transforma num ser esquizofrênico. Eu quero, mas não posso. Existe um abismo, enorme, e nenhuma ponte. Talvez eu consiga ver a outra margem, outros talvez consigam ver também. Mas não há ninguém lá, porque todos estão do lado de cá. Daí a ironia, sublime e trágica ironia. Alguns não resistem e arrojam-se abismo a dentro. Eu enlouqueço, prefiro enlouquecer, dia após dia; um dia eu pulo também.


Para quem discursamos? Para nós mesmos? Tenho todas as fórmulas da felicidade. Outros e outras têm-na também! Isto não é verdadeiramente uma maravilha? Saber disso me reconforta. Posso ir para casa agora, sentar em minha espaçosa poltrona, que é só minha, e refestelar-me de desejos sensíveis, de álcool, de sexo covarde e egoísta, ou de simples fuga alienante. A mente tem o poder de sair do corpo. Abandono ele às garras cruéis do cotidiano, enquanto minha mente absoluta e completamente metafísica preenche o universo. Mas minha mente e meu corpo jamais se recomporão na unidade originária; não nessa vida.


Então o que eu sou? Um ser cindido, dilacerado? Onde está a minha parte alienada de mim mesmo? São perguntas desse tipo que caracterizam facilmente um tal estado de esquizofrenia. A doença se espalha, reflete-se em todos os ângulos, vaza por todos os vetores e pontos. Mas não, pelo menos não hoje. Hoje eu fico aqui e deixo minha mente preencher o absoluto se ela quiser. Que vá para o diabo! Logo irei também. Hoje eu fodo com o mundo, assim como ele vem me fodendo sistematicamente desde que me trouxe aqui. Ser sádico; foi exatamente para isso que me trouxe aqui.


Não queria que assim fosse, eu juro. Mas estou em duas dimensões diferentes entre as quais não tem diálogo possível. Eu rezo, tenho fé, mas fé gratuita? Que tipo de estúpido banca a fé sozinho? Eu não posso, não tenho cu o bastante para isso; na verdade, ninguém tem, não sozinho. Sou o mesmo ser medíocre e egoísta que se esconde na multidão. Melhor: somos a multidão! Você também é parte de nós. Ninguém aqui tem rosto, quem dirá alma. Mas esse é o único modo de sermos todos um, é o único modo de transpor aquele abismo. É a simples e banal forma do suicídio coletivo. Talvez em algum outro lugar, longe dessa sórdida imundice que agradaria até ao verme mais asqueroso, talvez lá encontremos a vida.


Uma tal fuga não resolve em nada, eu sei. Mas não estamos já, nesse exato momento, fugindo? A todo instante! Chega de hipocrisia autocomplacente. Só queremos minimizar a extensão de nossos pecados. Ninguém quer ser salvo, ninguém quer se salvar, isso é fato, só não queremos morrer ou falhar sozinhos; por isso, queremos que todos soçobrem conosco. Ninguém quer queimar sozinho e, nisso, seremos exitosos.
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