terça-feira, 8 de junho de 2010

A produção do colapso

Quão impressionante não é esta era, a era da estupidez humana. Impressiona as potencialidades gigantescas que criamos, mas que, entretanto, submetidas a uma pérfida lógica, se voltam contra nós. Marx utilizou a metáfora do feiticeiro que já não pode mais controlar os poderes terríveis que conjurou. Aquele somos nós. Praticamente, já não há mais tempo hábil para corrigirmos o curso da embarcação que se dirige inevitavelmente às rochas.


Fala-se muito em aquecimento global. Faz-se muito pouco a respeito. É compreensivo, ou, pelo menos, pode-se presumir minimamente as razões desta inércia quase absoluta. Alguém disse que os seres humanos não são evolutivamente preparados para lidar com problemas futuros, ou seja, com prospecções históricas. Lidamos eficazmente com ameaças imediatas mediante um reflexo, um instinto de sobrevivência. Embora estejamos seriamente ameaçados quanto à nossa ulterior existência, simplesmente mantemo-nos lá, inertes, esperando que a fervura suba. Isto descreve com exatidão a presente quadra histórica, virtualmente limiar da existência humana.


Atribuí-se quase que tão-somente a responsabilidade aos indivíduos, como se existisse algo parecido com um mosaico de peças justapostas, cuja imagem resultante não fosse completamente distinta e sui generis com relação às peças que a compõem; isto é, como se a sociedade fosse feita de indivíduos e, portanto, não constituísse uma totalidade unitária. Aos indivíduos, caberia o consumo responsável, o que nos livraria do colapso. Mas o nosso sistema social não está fundado no consumo, e sim na produção. É nosso modo de produzir a vida social que se processa cataclismicamente. Com efeito, o futuro da humanidade não pode ser preservado senão por meio de uma radical ruptura com o modo de produção capitalista, uma revolução absoluta do sistema.


O problema, pois, é estrutural. O que dizer de um sistema que divisa no lucro o bem supremo do homem? Toda aquela gigantesca potencialidade produtiva que o homem criou e pôs em movimento não tem por fim a satisfação das necessidades verdadeiramente humanas, mas apenas seu próprio interesse sórdido de expansão. As necessidades humanas se transformaram no meio pelo qual as coisas se autoreproduzem. Os fins e os meios trocaram de lugar. Agora são as coisas que governam este planeta, e, em razão disto, somos pouco capazes de nos desfazermos delas. Enfim, como mover esta enorme estrutura sobre a qual assentamos todo o nosso modo de vida?
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