quarta-feira, 9 de junho de 2010

A BP não é exceção: o petróleo e seu padrão mortífero de produção.

Desde 20 de abril, vazaram aproximadamente 36 milhões de litros de petróleo no poço danificado onde antes funcionava a plataforma marítima Deepwater Horizont. Até final de agosto, data mais provável para a solução definitiva do vazamento segundo os executivos da companhia British Petroleum, serão despejados mais 57 milhões de litros no Golfo do México. Enquanto isso, o que realmente preocupa a companhia, seus executivos e seus acionistas é a desvalorização das suas ações nas bolsas. No começo deste mês, a companhia já tinha perdido um terço do seu valor de mercado (U$ 67 bilhões), ao mesmo tempo em que anunciava custos de 990 milhões de dólares com o vazamento (os U$ 5 mil que ofereceram aos moradores da costa para abdicarem do direito de processá-la são, obviamente, parte pouco expressiva deste custo). Obama anunciou a instauração de uma investigação criminal e afirmou que cobrará a conta da BP – o que, sabemos, dificilmente ocorrerá.


Mas enganamo-nos se acreditarmos que a BP constitui um caso isolado. Não se trata de uma “bad apple”. Não senhor. Trata-se do padrão normal de funcionamento de qualquer empresa capitalista. Neste exato momento, o estado de Niger Delta, na Nigéria, região altamente produtora de petróleo e que responde por 40% do PIB do país, está sendo amplamente degradado por companhias como a Shell, detentora dos maiores contratos na região. A Nigéria é um país esmagado pela miséria, não obstante, é o oitavo país exportador de petróleo no mundo, e dono da décima maior reserva.


Desde 1970, ocorreram mais de 7000 vazamentos nos postos de extração. Como os poços estão localizados em terra, sobretudo nos mangues e pântanos, o óleo contamina diretamente a região, afetando a população (em sua grande maioria rural) e seu meio de vida, a pesca e a agricultura. Além disso, o governo, apesar de sustentar uma fachada democrática, não passa de uma ditadura, cuja renda provem diretamente do petróleo (cerca de 80%). As populações do Niger Delta, privadas em seus meios de vida e sem outra opção, movimentaram-se e iniciaram movimentos de resistência e de protesto contra a permanência das multinacionais no país. Foram duramente reprimidas pelo governo, que se utilizou de força militar, assassinando e destruindo vilas inteiras. Tudo com a complacência da Shell. Houve até mesmo um caso em que militares utilizaram-se de um helicóptero da Shell para alvejar civis. Evidentemente que a Shell nega.


No Brasil, o complexo químico-industrial da Shell/Basf, localizado no município de Paulínea, na região de Campinas, em mais de trinta anos de atividade contaminou a região, sobretudo o rio Atibaia, e seus cerca de mil e duzentos trabalhadores. O Sindicato Químicos Unificados, que representa os trabalhadores da região de Campinas, custearam os exames médicos em uma amostra de trabalhadores da Shell/Basf e o resultado foi espantoso: 70% dos trabalhadores analisados estavam contaminados por produtos químicos. Muitos já morreram de câncer. Os trabalhadores se uniram e entraram na justiça contra a Shell. Ela imediatamente encerrou suas atividades na região e negou qualquer crime ambiental e social que possa ter cometido.


Eis aí, a lógica perversa do sistema.


Para maiores informaçÕes:


http://www.essentialaction.org/shell/report/


http://www.globalissues.org/article/86/nigeria-and-oil


http://www.hrw.org/en/news/2003/12/17/nigeria-delta-violence-fight-over-oil-money


http://www.quimicosunificados.com.br/busca_resultado.php


http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/internacional/consorcio-petroleiro-e-acusado-de-cumplice-em-crimes-no-sudao/view
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