quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Entre o crime e o desespero

Minha avó vivia me afirmando que a causa da criminalidade estaria na má educação que os pais depositam nos jovens de hoje em dia. Não posso culpá-la por pensar assim. Ela nasceu numa época em que os filhos ainda eram propriedades privadas de seus pais, e, muito provavelmente, recebera uma educação moral e ética extremamente rígida e hierárquica, de forte inspiração religiosa. Para minha avó, mãe de dez filhos, a educação familiar, especialmente a proveniente do lado materno, é o pilar mestre de qualquer sociedade saudável. Aí se receberiam os valores fundamentais – os quais, hoje em dia, já não possuem a mesma posição de importância na construção dos indivíduos comuns – sobretudo o temor a Deus, a obediência cega aos pais (ou às autoridades) e o trabalho ascético. Até a malandragem daquela época deveria ter uma educação mais ou menos nesses termos.


Hoje os tempos são outros, e os atos de violência gratuita incluem queimar ônibus de transporte urbano, bater na mãe em troca de “pedra” ou “pó”, quebra-paus de torcidas organizadas, ou tiroteios no sopé de um morro-favela qualquer. A mim, atos desse tipo, parecem muito mais exemplos desesperados de quem está se afogando. A violência é rotina e, para terem certeza que não vamos esquecê-la, repetem os fatos violentos do mundo urbano à exaustão. Quase sempre a culpa é de esqueléticos meninos-sem-rostos, violentos e desumanos. Segundo minha avó, certamente, a culpa é de seus pais e da educação displicente que lhes proporcionaram. Pergunto-me onde devem estar os pais desses meninos. Quando recebem as notícias terríveis dos acertos de contas entre os justiceiros do crime estariam chegando tarde da noite de algum emprego mal-pago a dezenas de quilômetros da sua residência? Ou estariam catando papel pela rua? Ou, o que é muito comum, a pobre senhora estaria em casa, desempregada, fazendo faxina ou lavando roupa para terceiros? Pais irresponsáveis estes.


Mas há diferentes tipos de violência, o que, talvez, tenha passado despercebido pelo crivo intelectual de minha avó. Será que ela julgaria um grande empresário que sonega impostos e corta benefícios trabalhistas como um criminoso, um arruaceiro nocivo à ordem social? Creio que não. Mas os crimes que um tal homem comete são por certo muito mais prejudiciais e repugnantes do que os daqueles pobres meninos-invisíveis esquecidos por entre as vielas. O crime do engravatado afeta milhares de pessoas, rouba e consume valores imensos de uma produção que, uma vez socializada, tiraria centenas, milhares de barrigas da miséria. É impressionante e assustador como um sistema que desvia, subverte e concentra noventa e nove por cento da riqueza que cria, consegue fazer com que a culpa recaia sobre uma criança faminta. E o senso-comum fez-se tão histérico com o crime que, pragmaticamente, vê pontos positivos na imputação. E, então, quem é a favor da redução da maioridade penal queira declarar-se publicamente, por favor.


Não será esse punhado de homens elegantes em seus ternos de colarinho branco, de vida pública ou privada, os verdadeiros pais daqueles meninos-soldados? Pais ausentes que deixam seus filhos agonizando nas ruas, pelos semáforos e viadutos. Minha avó não se importaria em dar-lhes umas boas palmadas com o fito de que aprendessem a educar melhor seus filhos, não batendo a porta ou subindo o vidro nas suas caras. Mas, no entanto, isto tudo é tratado como um simples deslize, como alguém que, meio distraído, esquece de pagar o pão. Já viram como os deputados se explicam, completamente desembaraçados, diante das câmeras cúmplices? Eles sempre atribuem a um roubo público o predicado de “erro”. Foi um erro infantil, uma travessura pueril roubar todos aqueles milhões, afinal de contas, ele só queria comprar panetones. O grande paizão mesmo é o Estado, que lhe dá uma palmadinha na bunda e diz: “esqueça isso e vá brincar meu filho”.
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