sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A tristeza

A tristeza é como uma pedra enorme colocada sobre as costas. Arcado para frente, passos curtos e indecisos, cabeça baixa a olhar fixamente para os pés. Uma penumbra cai como um véu soturno e acoberta a vista. Tudo fica lerdo e morto. Os sons se harmonizam em tons e escalas menores, melódicos e deprimentes. Aquilo que antes tinha graça torna-se ou sem graça ou angustiante. Face inexpressiva, abjurada da alegria. Não fazemos mais do que o necessário nessas condições; simplesmente agimos como se tudo fosse acabar no instante seguinte, então de que adiantaria fazer algo importante? É como um “foda-se” geral, eterno e definitivo.


Sempre lidei de forma singular com a tristeza, e, talvez por isso, nada disso do que escrevo seja merecedor de crédito, deva ser levado a sério. Sofro, por assim dizer, de uma tristeza relâmpago, repentina. Do estado normal do humor, para uma tristeza profunda num piscar de olhos, e desta para aquele no momento seguinte. Simples assim, sem explicação alguma. Nenhum fato em absoluto que poderia nomear como causa. Talvez alguma disfunção hormonal (estará cientificamente correta esta hipótese?), do tipo serotonina, adenosina, cocaína, qualquer composto psicoativo terminado pelo sufixo “Ina”? Não importa, de qualquer maneira, recusaria qualquer remédio receitado mesmo. O fato é que já foi pior. Do que fora antes, hoje minhas tristezas relâmpagos não passam de um tímido clarão em céu aberto. Terá meu cérebro começado a produzir mais “inas”? Tampouco importa. Acho que, decerto, desenvolvi métodos, aprendi a conviver com elas e, assim, já não sinto mais tanto os seus efeitos.


Mas a tristeza convive bem com a solidão. Ancoradas em meu coração, ambas cavaram profunda trincheira nesse espaço vazio. A solidão a gente enterra. Engolimos a tristeza num só trago, levantamos a cabeça rindo de modo desconfiado e seguimos em frente. Mas elas teimam em nascer de novo, como ervas daninhas inexoráveis. A tristeza e a solidão terminam por florescer e crescem abundantemente, fazendo selva meu coração.
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