terça-feira, 3 de novembro de 2009

A ciência e a torre de marfim

Por décadas, acusaram o marxismo de um utopismo irremediável, de perceber na história um movimento contraditório que poria fim à sociabilidade capitalista, percepção esta, para esses críticos, completamente infundada, dignitário mais de fé do que de ciência. Outros, menos radicais, argumentaram que o compromisso marxista com a superação e transformação social em favor de uma sociedade sem classes, noutras palavras, sem exploração do homem pelo homem, era algo louvável, embora irrealizável, de modo que a plena emancipação humana deveria ser substituída capengamente por uma reforma nas iniquidades do capital. Se, em resumo, nos acusam de utópicos e não de cientistas, acusamos a direita e o centro do espectro intelectual de conformismo – quando não de partidários de classe, cujos interesses escusos conformam seu ponto de vista. E, afinal, quando a ciência deixou de parte seu compromisso com a crítica e a transformação revolucionária da realidade? Quando “utopismo”, nos termos deles, passou a ser uma qualidade pejorativa? E, por acaso, não deveria ser a ciência um fator importante no progresso do desenvolvimento humano? Senão, qual seria sua utilidade?


De fato, cooptada pelo capital, a ciência é hoje instrumento de engessamento da realidade. Proclama-se “cientificamente” o “fim da história”. É tristemente engraçado como até mesmo os cientistas sociais que se dizem de “esquerda”, que se dizem desejosos por uma nova ordem social, afirmam que o marxismo escorregou na perspectiva da revolução, que foi no momento em que Marx previu a transformação revolucionária do social – que, diga-se de passagem, ele não chegou a aprofundar analítica e teoricamente porque sabia caber ao movimento histórico real nos mostrar o caminho, limitando-se a advogar a necessidade e a possibilidade de pormos fim à sociedade de classes, o que ele chamou genericamente de socialismo – que ele minou suas formulações científicas a respeito do capitalismo. A descrença em Marx, dizem, é devida ao seu utopismo. Partidários de uma pseudo neutralidade, afirmam ser incompatível ciência com política, noutras palavras, mesmo que não percebam, acabam afirmando que a ciência não se presta a crítica social, que fazer ciência não é fazer política, e que quem faz ciência militante e compromissada não é digno de crédito.


É revoltante como as ciências sociais se deixaram enlevar por esse discurso burguês. O argumento que empunham como um estandarte de guerra, com o qual pretendem invalidar a perspectiva da revolução no marxismo – perspectiva, de fato, científica – é tão lasso quanto os gritos ideológicos desesperados da burguesia, esgotada em face da história. Embora lasso, é contraditório como esse argumento infantil ainda consegue fincar fundo seu pé na terra. Precisamente o oposto do que dizem: a ciência é crítica e militante por natureza, deve fazer cumprir seu papel ativo na transformação do real e não se trancafiar na última torre do seu castelo de marfim enquanto os homens devoram-se uns aos outros à sua porta.
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