quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Novas gerações e velhas desilusões

Aos nossos pais e avós é relativamente fácil – e temerário – pôr o dedo em riste e acusar-nos de indolência, ociosidade e apatia. Imputam-nos a culpa de uma situação que não criamos, mas, ao contrário, que nos foi legada. Para eles, nascidos quando acreditava-se ser possível harmonizar a relação capital/trabalho, destruir os antagonismos e criar a cooperação entre os homens, a despeito de suas diferenças de classe, a crença no trabalho duro, na firmeza de caráter, na observâncias dos costumes morais eram suficientes para resgatar o mundo da iniquidade, embora nada disso tenha sido realizado efetivamente. Simples questão de tempo, simples continuidade de um trabalho já iniciado por eles, mas que a nova geração defraudara suas expectativas. “Trabalhamos duro e facilitamos demais para eles”, é o que dizem. “Estragamo-los”.


Nascemos num mundo cujas mais diminutas brechas foram ocupadas pelo Capital, sufocando a nova geração. Obviamente não somos o futuro de nada; somos a face mais esgarçada da angústia e da desesperança que nos espera logo ali, na esquina da história. E, de fato, para aqueles que nasceram e cresceram durante os “trinta anos gloriosos” do capitalismo é razoável crer positivamente na honestidade dessa sociedade – a meu ver, inerentemente desumanizante e corrupta. Mas não para nós. Após duas ou, no máximo, três décadas de devorismo irracional, por parte da máquina, da carne e da mente humana, de deglutição ávida por matéria natural, cujo produto cagado não se converte em benesses a todos, senão a poucos, ser-nos-ia impossível acreditar nessa lógica abominável. E culpam-nos justamente?


Não, estamos cansados de ser acusados. Vocês tiveram sua chance, mas a desperdiçaram com engodos infantis dos patrões. Em troca de uma máquina-de-lavar, uma televisão e cerveja barata esposaram as exigências do Capital, o qual ofereceu-lhes mundos e fundos de deleite e desfrute. Não tiveram, foram enganados. Não percebem? O mundo em que acreditavam rui, como um muro. Somos o produto hipócrita dessa realidade que nos devora as beiradas da razão dia após dia. Se somos podres – e, certamente, somos mesmo: hedonistas, mesquinhos, apequenados moral e intelectualmente –, somos em grande medida por culpa de vocês, cuja herança não foi mais do que valores e objetivos vis, desumanizantes. Temos parcela de culpa? Pois evidentemente. Todos têm. Eu, enquanto indivíduo singular, enquanto João Gabriel Vieira Bordin, não me esforço muito para tentar reverter tal quadro. Apenas procuro compreender avidamente a realidade que me cerca. E quanto mais conheço, mais me desencanto. Eu digo, com certo pudor, é verdade, confessadamente que sou um pessimista. Sou parte intrínseca do problema, e, por enquanto, continuarei alimentando sua insolubilidade.


P.S: o devir deve ser construído pelas novas gerações, não esqueçam...
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