segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Quem trabalha, quem consome?

Trabalho estranhado, trabalho alienado. Compramos mercadorias inúteis, sem as haver produzido. Não compramos as mercadorias inúteis, mesmo tendo as produzido. Aquelas pobres almas, homens e mulheres, cujo sangue o Capital atravessou oceanos e continentes para sorver, laboram dia e noite para produzir uma infinidade de televisores de plasma, de celulares, de brinquedos eletrônicos, tudo da mais moderna geração, os quais, eles próprios, não podem usufruir. São explorados, desumanizados, bestializados ao longo de uma existência descartável. Os produtos de seu próprio trabalho lhes são estranhos. Que fazem estes produtos além de voltar-se contra seus criadores e escravizá-los?


Não bastasse vê-los todos os dias, aos milhares, a correr frente aos seus olhos, um por um, peça por peça, entrando pela esteira na forma de elementos de pouco valor agregado e saindo pronto, acabado, levando o seu trabalho cristalizado ao próximo comprador, esses trabalhadores são obrigados a vê-los também na mídia, no “horário comercial”, sendo trazidos reluzentes, como invólucros contendo felicidade, implorando para serem adquiridos. Mas, afinal, qual horário desse mundo capitalista não é comercial? Há algum momento, por menor sequer, em que qualquer coisa não esteja relacionada, motivada, determinada pelo valor, pela forma mercadoria?


– Pai, compra pra mim aquela boneca? – pergunta a criança, em chinês, inocentemente ao seu pobre pai, exausto, derribado num sofá roto, a olhar fixa e indistintamente o teto, sem nada a dizer. Como poderia? Como explicar à filha, incapaz de entender o mundo que a cerca, que não pode comprar uma das milhares de bonecas que faz todos os dias? São tantas, mas não são dele, não podem ser consumidas por quem as produz, são tão-somente valores-de-troca.


E essa cena repete-se abundantemente, senão de forma homogênea, pelo menos endêmica e espraiada pelas muitas periferias desse mundo. Quantos pais e mães não estão sobre esse jugo, a saber, do Capital? Cenas corriqueiras que não encontram paralelo em nenhuma fantasia dantesca, são, na verdade, reais. A mãe que, a pós contar as parcas moedas nas mãos, constata tristemente que não tem o suficiente para comprar um doce, um salgadinho, uma Coca-Cola, ou qualquer coisa que o valha para o filho que pede atrelado à barra da sua saia; ao mesmo tempo em que uma outra mãe cerca seus filhos de sufocantes paparicos, gastando a felicidade alheia. Eu mesmo, quem vos escreve, quanto da felicidade alheia consumo? Não trabalho e, portanto, não tenho uma existência produtiva, mas, no entanto, consumo, e relativamente bem. Quanto do que consumo é meu por direito e quanto deveria ser de outrem?
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