terça-feira, 11 de agosto de 2009

O mito da felicidade

É triste ver as pessoas tentarem ser feliz. Tentarem é a palavra correta? Não. Desejarem ser feliz. É isso o que elas fazem: lamentam seus desejos vãos e irrealizáveis de felicidades intermináveis. Acreditam que existe uma felicidade para além do horizonte, acima dos píncaros rochosos e frios, no final da estrada, num amor além-mar. Ou mesmo que haveria de ser encontrada na outra vida que as esperam, na labuta empreendida com afinco e sem reclamações, no final de uma das pontas do arco-íris. Enfim, seja qual for a forma desse sonho, ele traz consigo uma concepção irracional de felicidade: a de que a felicidade seria um bem maior, um bem supremo, prêmio máximo concedido à realização pessoal de cada alma desse mundo tenebroso pela coragem vitoriosa.


Envoltos nas trevas, a felicidade representaria a luz no fim do túnel para esses seres tão habituados e afeitos ao sofrimento. Nesse sentido, a felicidade é egoísta. Nada impede a um indivíduo qualquer passar por cima da felicidade alheia para conquistar a sua própria. Ou talvez roubá-la de algum descuidado. Afinal, em se tratando da felicidade, não valeria à pena lançar mão de qualquer meio, moralmente condenável ou não, para obtê-la? Os meios não justificariam o fim? A felicidade consiste num estado individual caracterizado, por um lado, pela completa ausência de sofrimento, e, por outro, pela mais absoluta presença de satisfação com tudo aquilo que é comumente considerado bom: o dinheiro, o amor romântico, o bem-querer de amigos próximos, a boa relação com familiares, a “saúde de ferro”, o sucesso profissional. Todos esses pequenos bens burgueses dos quais ouvimos tão bem e, tão cedo quanto possível, somos encaminhados e instados a persegui-los. É bem verdade que, para cada alma solitária desse mundo, este ou aquele desses objetivos pode ou não ser considerado bom, ou uns podem ser considerados melhores do que outros. Entretanto, isso não elimina o fato de que são essencialmente objetivos individuais, individualistas e individualizantes.


Como objetivos individuais que são, só podem ser alcançados pelas almas particulares que, travando uma encarniçada luta, disputam palmo a palmo as parcas reservas desses elementos compositores da felicidade de que dispõe nosso mundo. Em vista disso, tornam-se almas aguerridas e tendem sempre a desconsiderar que, por direito, a alma adjacente à sua também é merecedora da mesma coisa que si mesmo. Cada uma sofre candentemente por não alcançar aquele estado indelével de felicidade que lhe fora prometido. Como se, uma vez alcançada, a felicidade fosse um estado eternamente perene, de cujo usufruto jamais seríamos novamente despojados.


Mas não é assim. A felicidade é um conceito burguês. Ela não pode de modo algum ser plenamente realizada porque ela não é um fim, e sim um meio. É através dela que nos dispomos dia após dia a acordar cedo e a nos abalançar, sem uma clara noção das verdadeiras razões, para a insanidade do cotidiano servil e hipócrita que partilhamos. Fazemos isso, fazemos aquilo. Ora de bom, ora de malgrado Estudamos o que achamos que nos conferirá uma carreira coroada de sucessos. Se, por sorte ou por artimanha, conseguimos fazer a vida dentro da área estudada, esperamos que desse trabalho saia a satisfação, seja ela sentimental, pecuniária ou de qualquer outra natureza. Ao mesmo tempo, no meio dessa balburdia toda de suceder-se de fatos, surge o amor. Este é literalmente fogo de palha. Dura tão pouco quanto se acreditou sê-lo infinito e eterno. De repente vira rotina. Aquilo que pareciam ser qualidades viram defeitos, defeitos insuportáveis que sufocam o que antes parecia ser amor. Mas não é o amor que acabou. É a busca desesperada pela felicidade que, não sendo encontrada no amor, na profissão ou na família, volta-se raivosamente contra os meios que supostamente deveriam realizá-la. E enfim, eles assistem à novela, pois lá sim existe um final feliz, tomam remédios para o desequilíbrio mental que os acometem, maldizem tudo e todos, e, por fim, morrem amargos e ressentidos com o destino medíocre que lhes fora reservado. A felicidade é uma cenoura amarrada na ponta de uma vara, que, por sua vez, está amarrada ao dorso dos asnos, burros, jegues, jumentos e mulas que somos todos nós. Dela não podemos tirar mais do que diminutas mordidas insossas. A felicidade plena não pode existir, vai contra as leis naturais e sociais desse mundo. Talvez – repito, talvez – em um futuro cuja aurora seja a emancipação humana tenhamos da felicidade um pouco mais do que costumam nos dar de ração.
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