quinta-feira, 7 de maio de 2009

Algumas reflexões da vida vivida sem saber porquê se vive

Certos dias tudo o que se quer é deitar o corpo sobre alguém, largar-se sem receio ao relento que sopra junto ao vento, trazendo o murmúrio da vida simples que se estende para além do fim do mundo, aonde o tempo é mudo e cabe-se tudo o quanto se quiser colocar nesse pequeno, porém aconchegante espaço. Sentir a textura do sol quando seus dedos delicados tocarem minha face impassível, impávida, sem grandes ambições que venham a desvirtuá-la, é ao mesmo tempo sentir e saber que ainda estou vivo.


Há algo sussurrando ao pé do ouvido, algo que há muito insiste em ser ouvido. Nunca, em feita alguma que eu possa recordar, parei para prestar a atenção devida. E ele continua lá. Ou aqui, por perto. Existe um turbilhão caótico de estímulos que enchem os olhos, tapam os ouvidos e tornam indistintos os sabores ao paladar. O brilho que se sucede em espectros infindos a cada segundo, o barulho agudo e seco do soco quebrando ossos, o gosto acre e amargo que rasga ao meio a timidez já no primeiro trago. Tantos estímulos e nenhum sentimento verdadeiro? Pareço uma concha oca? Aonde foram parar os inúmeros moradores sonhadores que compartilhavam a minha morada?


É triste quando, por um breve instante de lucidez, falo comigo mesmo e não ouço resposta alguma, só o eco propagando no vazio que é a minha vida. No momento de silêncio mais terrível é onde nasce a remissão dos pecados mais detestáveis. Vejo enfim o abismo no qual venho caindo a tempos imemoriáveis. Quando parei de lutar e deixei-me desabar pela encosta escarpada e sem flores que com uma obstinação tola escalava? Já não faz sentido esfacelar as mãos nessas pedras altas. Faltava tão pouco. Agora não falta mais nada. Quando você perder tudo, daquilo por demais amado àquilo de que se odeia visceralmente, enfim estarás livre. Estarás pronto a despencar pelo abismo sombrio, para o qual jamais olhara por medo. E de que é feito tal medo, senão de dor e sofrimento? Esculpido por tapas, pontapés, murros, urros e gritos raivosos nas mentes solitárias de quem não entende a vida como eu. E você se debate, e reza, e implora e chora por uma nova chance que não virá. E você por fim desistirá e irá embora, carregando às costas histórias de batalhas épicas, talvez inglórias, mas das quais se rememorará como maravilhosas vitórias. Edificará um pequeno altar, ornado com rosas murchas, em cujo ápice reluzirá belas lembranças cultuadas como deuses. Ao pé do altar farás uma pequena casa humilde, e se alguém algum dia bater à porta perguntando por você, dirás que é fulano, ou talvez cicrano, mas que não conhece beltrano. E esse será o fim da evanescente lembrança que deixarás em troca do doce sabor da morte.


Mas voltemos ao hoje, ao agora. O dia é lindo. Carregado de esperança pueril no corre-corre das crianças despreocupadas. Seus sonhos e desejos são tão descomplicados que muitas vezes seriam considerados por nós tão-somente nulidades fugazes, bobagens prosaicas, como sair para chupar um sorvete ou pular o muro de uma casa abandonada. E vemo-las rindo e festejando. Ora entremeando-se choros, é verdade, mas dificilmente devido a uma verdadeira tristeza. Não, tal reação não possa de um mecanismo de defesa, algo a que as crianças recorrem quando não vêem satisfeita uma necessidade boba, ou quando se sentem ameaçadas. Essa despreocupação ora me irrita, ora desperta em mim uma inveja, uma vontade de me desprender de toda e qualquer responsabilidade sem sentido.


De que vale tudo isso se a felicidade não passa de momentos efêmeros, fugidios, sobre os quais não se tem controle algum e o máximo que podemos fazer é implorar para que jamais passe? O que é a vida senão um oceano de tristeza no qual nos afogamos diariamente? Lutamos sofregamente para subir à superfície, mas apenas por um breve instante respiramos o ar úmido que acompanha pari passu o espelho de lágrimas intransponível.


De tudo o que eu vivi pouca coisa me traz lembranças agradáveis. Mas ironicamente, quando acontecem, elas se traduzem em momentos tão simples, tão singelos e inoportunos do cotidiano, que sou tomado de assalto por uma sensação de paz e tranquilidade. E parece-me sempre inexplicável como uma lembrança tão insignificante à primeira vista pode ser tão poderosa, fazendo-me pacífico por um momento. Tudo o mais perde a importância e o mundo de agora, de hoje, no qual estou inserido, parece pesado, carregado de um ar irrespirável, imundo e poluído. Em contraste, a textura daquele sol pretérito assemelha-se às nuvens leves de um olimpo individual. Aquele vento pretérito afaga minha pele ao invés de fustigá-la, e o ar é saboroso como uma torta confeccionada pelas mãos maestrinas da avó, exalando um tempero sutil e convidativo.


Por que as sensações produzidas por estímulos objetivos como o vento, o sol, a comida da minha avó, o rio no qual pescava com meu pai, a calçada na qual passava as longas tardes, podem ser muitas vezes recordadas sem rancor, ao passo que lembranças de acontecimentos cujo sujeito era eu são por vezes relembradas com hostilidade? Haveria aí alguma espécie de autopunição? Uma sensação de malogro, de que inutilmente por fim eu falhei? As coisas materiais simples de que somos presas fáceis traduzem-se em conforto, na sensação de satisfação de uma necessidade. É uma paz verdadeiramente mundana, sensual e tangível. De fato, isso denota uma certa incapacidade minha em lidar com outros seres portadores de subjetividade. Outro que possa pensar, falar e agir soberanamente sobre si, pode também ter como ponto de referência a minha pessoa, pode direcionar seus atos para mim. E eu sou um ser tão arisco, arredio e tresmalhado, que à mera menção de contato e comunicação acossa-me pungentes vertigens na mente. Imediatamente soa o alarme do ataque iminente e, no momento seguinte, opera-se a fuga, quase sempre triunfante. O arrependimento ulterior não é condição suficiente para que a cena não se repita. E voltará a se repetir um sem-número de vezes, condenando-me eternamente à solidão.
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