domingo, 19 de abril de 2009

Sobre os males contemporâneos

São muitos. Prolíferos, circunscritos e concentrados sobremaneira nos indivíduos, a sociedade atual só tende a exacerbar seus efeitos. Compulsões, insociabilidade, angústia, ansiedade, stress, depressão, pânico. Seria impossível lembrar-se de todos, ainda que quisesse, pois provavelmente um novo mal psíquico está sendo descoberto nesse exato momento, agora. Seja como for, não me cabe aqui tratar de cada um deles em separado, menos ainda falar de um ponto de vista mais geral. É-me de direito apenas discutir acerca daquilo sobre o qual tenho conhecimento, no caso, prático: a solidão. Esse sim é o mal que devora minhas entranhas, aflige minha mente e seca minha alma. Não que nenhum outro fantasma não me persiga, ao contrário, mas certamente este é o maior e mais perigoso. Ele está comigo quando acordo e não há ninguém ao meu lado; quando tomo meu café ouvindo música; quando saio para dar cabo das correrias diárias; quando deito a cabeça taciturna no travesseiro confidente; enfim, em cada momento, seja do mais ordinário ou do inesperadamente singular. Não obstante a possibilidade de se encontrar a remição à solidão em um fato extraordinário, usualmente isso não acontece – e, caso aconteça, amiúde dura pouco. Estamos trancafiados em celas individuais, cercadas por poços infindos de frustrações e medos, condenados a uma existência unicelular. O desejo egoísta, ou apenas o medo de se machucar, tornou as relações humanas distantes, conversadas mediante ecos, quando não completamente desconectadas por ouvidos moucos. Cindimos cada vez mais a massa e servimo-la em pequenas porções individuais. Evidentemente não gostamos da má digestão resultante, mas é assim que fazemos há algum tempo. É o nosso tão belicosamente defendido way of life. Quanto a mim, mesmo não querendo, levo isso muito à sério, quase ao pé da letra. Pudera! Porquanto a minha timidez pueril procurou me afastar desde daqueles com quem convivi um razoável tempo de vida, até daqueles com quem simplesmente troquei uma olhadela fugaz. Portanto, não é de ontem minha solidão. Estou vacinado e não recaio mais no sofrimento como era de costume. Agora, ela é minha mulher, companheira para toda a vida e já não sei mais se quero o divórcio. Você acaba se acostumando. À parte isso, tenho em mim uma vontade ingente de um par pra dividir. De mais a mais, a insensatez cotidiana mantém-me ocupado, com a mente focada em objetos inúteis, o que cumpre uma função de suma importância na sociedade contemporânea, qual seja, desviar a atenção das necessidades verdadeiramente humanas e preencher o vazio que a falta delas cava no peito. Então você trabalha, trabalha e, um pouco mais, trabalha, para comprar, comprar e, sempre mais, comprar o quanto pode. É verdade que na escassez monetária recorremos a outros métodos menos sofisticados para sanar a angústia moderna, como a comida em excesso, cujo corolário é a engorda sistemática. Seja como for, o resultado continua tão o mesmo quanto as causas que o produziram. E, no limite, o que rigorosamente nos interessa aqui são as causas, por que sem uma dada causa não há um determinado efeito. Sendo assim, a conclusão óbvia é a urgência em substituir as variáveis da equação. Porém, como se elas já estão dadas por um pano de fundo social infinitamente mais complexo e sobre o qual não há controle individual algum?
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