quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Da falsa glória a que nos entregamos todos os dias

Ando por essas vielas imundas e vejo homens que antes são fantasmas das suas possíveis vitórias. Eles estão torpes, inebriados pelos seus faustos. Passo despercebido por detrás da turba em festa, donde cada qual comemora suas vitórias sobre os demais. Todos querem ser o juiz de suas próprias lutas, e procuram dividir o butim em quinhões desiguais mas, para si mesmos, justos. E antes que tu procures julgar-me hipócrita, antecipo minha defesa: sou exatamente igual e infinitamente pior! Sou o reflexo de um egoísmo vergonhoso que afronta minhas próprias pequenas glórias. E, por isso mesmo, estou sempre anteposto aos efeitos nocivos que a visão de tal espelho poderia resultar em minha mente. Daí porque não me misturo à turba. Enquanto eles comemoram suas supostas vitórias individuais eu me escondo delas, porque sei dos restos podres em que estive mergulhado para tê-las. E agora sou seu escravo mais servil. Alguém virá sem dúvida e me perguntará: e seus despojos, quede? E eu direi-lhe altivo: aqui está! Mas estarei involuntariamente ressentido comigo mesmo, ainda que não deixe transparecer a ninguém o desgosto do meu desajuste e da minha falta de lugar. Por hoje, faremos como a multidão: que brinca e pula falsamente, fingindo ser feliz. E porque não, se o que sempre nos valeu foram antes os fins do que os meios? Então, pedirei a palavra e narrarei as aventuras e desventuras homéricas em que estive metido para conquistar aqueles espólios. As pessoas ouvirão encantadas e, ao termo da narrativa, inflamar-se-ão numa fragosa salva de palmas e de urras. Pouco tempo me restará depois até que eu deite a cabeça no travesseiro e a consciência escape da grade em que passa encarcerada e venha me pungir. Ela é uma besta feroz que devora pouco a pouco nossa sanidade e a cada noite o estrago que faz é maior. Mas a questão aqui não é a penitência mental com que nos punimos diariamente, mas sim o suicídio coletivo que praticamos todos os dias, arrastados por uma inércia inexpugnável e, pior, às vistas uns dos outros. E, por fim, brindaremos a isso! ”Um brinde à coragem de mais outro grande irmão” diremos! Tudo parece concorrer para que tapemos os olhos. Mas só isso não adianta. Ainda ouvimos os gritos porque demos nosso aval e, portanto, somos culpados. Culpados e, uma vez que somos nossos próprios juízes, sentenciados. Vamos continuar caminhando, com uma venda nos olhos e um cigarro barato pendendo entre os lábios, rumo ao moedor de carne da História feito gado. E todos, todos indiscutivelmente procurarão fazer de suas sardinhas, salmão. Direi que fui o mais justo entre os homens e, senão o fui, culpa minha não é. “Porque se entregaste à multidão corrupta?” a voz sentenciadora perguntará. Responderei amedrontado: “não tenho culpa de ser homem”. Pois tem! Portador do livre-arbítrio inútil, de modo que seria melhor então não tê-lo. Talvez assim fosse perdoado. Contudo, por que pensar no juízo final se ainda estamos bem, a salvo e pulando carnaval? Não seria melhor deixar o juízo para o final? Nesse caso continue a brincar e despojar a felicidade de outrem, se ser tão individualista lhe apraz. Incrível saber que tamanho egoísmo não te contrista em face da pobreza alheia. Mas que não te faças de ingênuo quando os efeitos bater-lhe à porta. Serás veementemente esmagado quanto mais estiver coberto pelo fausto.
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