sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Ação social e tipo ideal

Para Weber, a sociologia só pode se definir, enquanto ciência, “tomando-se como ponto de partida a ação do indivíduo, [ou seja, de modo] estritamente individualista quanto ao método” (WEBER, 1920).
O objeto de análise sociológico, portanto, não pode ser estruturas e instituições sociais com sentido intrínseco e exterior ao indivíduo, uma vez que é o indivíduo, como agente social que atua concretamente na realidade, que constrói as estruturas sociais mediante a ação social e lhe confere sentido no intuito de alcançar determinados fins.
Nesse sentido, a compreensão sociológica da ação social deve ser feita a partir da reconstrução, através da análise interpretativa, do sentido e do motivo subjetivo ao agente social. Isso porque “do ponto de vista do agente, o motivo é o fundamento da ação” e do ponto de vista do sociólogo o motivo “figura como a causa da ação” (COHEN, p. 27).
A ação social não pode ser pensada abstratamente e reduzida puramente à dimensão do indivíduo. Ela constitui uma ação social exatamente porque se orienta “significativamente pelo agente conforme a conduta de outros e transcorre em consonância com isso” (idem, p. 26-27). O sentido manifesta-se, portanto, nas ações concretas do agente na sociedade e ele fundamenta tal ação por meio de um motivo que lhe é subjetivo. Interessa portanto, para Weber, a reconstrução do motivo (causa) e a captação do sentido.
Dado que a ação social constitui um meio para a consecução de certo fim desejado pelo agente social, ela não pode limitar-se a um ato isolado. Ao contrário, é formada por uma cadeia de pequenos atos que se conectam via elos de significação, ou seja, processam-se segundo o sentido e, conseqüentemente, segundo o fim visado subjetivamente pelo agente. De acordo com Cohen, “os elementos desse processo articulam-se naquilo que Weber chama de ‘cadeia motivacional’” (p. 27), de um modo tal que cada ato parcial se insere numa corrente de atos seqüenciais relacionados entre si. Cada ato tomado isoladamente não diz nada, mas postos em um todo constituem o processo realizado pelo agente como o meio para a consecução de determinado fim ansiado.
Assim, aos objetos e processos da sociedade a ação humana imprime uma natureza específica de acordo com o sentido visado. Essa natureza, por sua vez, pode ser de ordem econômica, política, educacional, etc. Dentro da ação social encontramos o sentido que une os processos, os articula entre si e, por fim, a torna compreensível. “É somente através do sentido que podemos apreender os nexos entre os diversos elos significativos de um processo particular de ação e reconstruir esse processo como uma unidade que não se desfaz numa poeira de atos isolados. Realizar isso é precisamente compreender o sentido da ação”, escreve Cohen. Portanto, cada processo de ação social possui um sentido particular que conecta todos os elos do processo e permite caracterizá-lo como de natureza ou de ordem tal; noutras palavras, a captação desse sentido permite compreender a ação nas suas causas e efeitos.
Conclui-se que a compreensão se dá mediante a reconstrução do encadeamento significativo do processo de ação e que o que se compreende não são os processos psicológicos subjacentes ao indivíduo agente da ação, mas sim o sentido social que ele lhe confere.

Seguindo o esquema de Cohen, o próximo passo é “examinar o papel do conceito de ‘agente’” (p. 28) na teoria weberiana. Qual seria então o argumento de Weber para analisar a sociedade a partir do indivíduo e não das classes, por exemplo, uma vez que as análises sociológicas devem ser de ordem coletiva e não psicológicas?
Há duas razões para isso. A primeira sustenta que apenas o indivíduo – o agente social individual – pode efetivamente conferir sentido às ações. A segunda razão é um tanto mais complexa e devemos nos deter um tanto mais. Ao contrário do materialismo histórico, a teoria weberiana defende a importância da “autonomia interna das diferentes esferas da existência humana”, nas palavras de Cohen. Isso significa que cada esfera distinta da existência humana – a econômica, a política, a jurídica, a artística – se processa conforme uma lógica interna própria, de maneira que não se pode encontrar no interior de uma delas a causa do desenvolvimento de outras. Decorre que a articulação entre as diversas esferas necessita de um elemento mediador que, ao agir concretamente na realidade, ponha-as em contato: o agente individual. Esse é a única entidade social capaz de realizar esse movimento, porquanto é ele que fundamenta as esferas através da sua ação e que reúne em si mesmo simultaneamente múltiplas delas, dado que os agentes sociais operacionalizam ao mesmo tempo com variadas ações sociais na realidade. O indivíduo constitui assim o elo que intercambia as várias esferas da existência humana, as quais correm paralelas entre si, sem se tocaram senão mediante as ações sociais dos agentes individuais.
Basta pensar na reflexão weberiana acerca da ética protestante (esfera religiosa) e sua influência na gênese de um “espírito capitalista” (esfera econômica). Cada uma dessas esferas é autônoma entre si já que possuem uma lógica interna própria – que Weber chama de “legalidade própria”, mas que podem ser postas em contato através da ação do agente individual, portador simultaneamente de sentidos econômicos e religiosos (COHEN).

Como cada agente mobiliza em si infinitos sentidos e ações, não há possibilidade de serem analisados cientificamente do modo como se apresentam na concreticidade. Faz-se necessário então elaborar um instrumento metodológico capaz de dar conta dessa realidade extremamente ampla, complexa e difusa: o tipo ideal. Nas palavras de Cohen: “impõe-se (...) a construção desse instrumento de orientação na realidade empírica e meio para a elaboração de hipóteses, que é o tipo ideal” (p. 29). O tipo ideal jamais se apresenta efetivamente nas situações reais e observáveis. São construídos e existem tão-somente no pensamento do pesquisador como um recurso metodológico capaz de caracterizar o sentido de uma determinada ação social, enfatizando aspectos e traços singulares que permita conceber o fenômeno social na sua expressão mais pura, todavia inexistente na realidade. Busca-se, portanto, “enquadrar” a realidade mediante alguns traços singulares caracterizantes de uma dada ação social. Esse é o “exagero” metodológico de que fala Cohen.
A análise sociológica weberiana não poderia se conter apenas no sentido estritamente individual que cada agente social confere a sua ação social. Pode-se encontrar empiricamente certas regularidades nas múltiplas ações sociais diretas e indiretas entre inúmeros agentes. Essas regularidades são formas de conduta com caráter coletivo e que são incorporadas cotidianamente à vida dos agentes. Constitui, pois, um desdobramento da ação social: a relação social.
Na ação social o sentido se orienta em face de outro (ou outros). Já na relação social é um conteúdo de sentido reciprocamente compartilhado que orienta a ação de múltiplos sujeitos, independente de estarem em contado direto ou não. A relação social, portanto, figura como uma norma (um conteúdo de sentido) compartilhada coletivamente que influi sobre as ações. Essa influencia só pode ser pensada em termos de probabilidade, porque não há garantia prévia de que ela ocorra, de modo que as relações sociais “não existem senão quando se traduz[am] em condutas [ação] efetivas” (COHEN, p. 30).
Quando o conteúdo de sentido de uma dada relação social é incorporada e aceita como legítima, essa relação social, por sua vez, valida uma determina ordem produto da ação social como legítima. A validação de uma determinada ordem (que pode ser convencional ou jurídica) social como legítima diz respeito aos conteúdos de sentido das relações sociais referentes à esfera de ação dessa ordem. No exemplo dado por Cohen, “podemos falar de uma ‘ordem econômica’, em termos dos conteúdos de sentido das relações sociais referentes ao mercado, ou de uma ‘ordem social’, relativa aos conteúdos de sentido das relações sociais referentes a uma concepção de honra e a um estilo de vida dos agentes; ou ainda de ‘ordem política’, relativa aos conteúdos de sentido referentes à apropriação e luta pelo poder”. Três conceitos surgem a partir dessa análise: classe, estamento e partido. São, portanto, os conteúdos de sentido de dadas relações sociais tidos como legítimos que orientam à ação social dentro de determinadas esferas da vida social.
A legitimação à conteúdos de sentido por parte dos agentes sociais é sempre provável e sua persistência está sempre colocada de forma problemática na realidade, porque envolve confronto de interesses diversos entre os indivíduos. Assim, a possibilidade de ruptura de processos de dominação está sempre ligada à continuidade ou ao abandono, pelos dominados, da crença na legitimidade que fundamenta determinados mandatos de dominação.
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