quinta-feira, 17 de julho de 2008

Tentando entender

Não lembro de muita coisa. Na verdade, foi tudo muito rápido. Recordo-me de ter corrido. Corrido. E quando pensei em parar, corri o dobro. Corri até o chão sob meus pés sumir. Até minhas veias estourarem, e meus músculos dilacerarem-se. Não podia frear. Não podia olhar pra trás.


É tudo o que me lembro. Não havia paisagens, nem pessoas, nem céu, nem luz. Se havia, estava escuro demais pra ver. Ou meus olhos que não mais absorviam a luz.


Meus pulmões explodiram! Estava sufocado. Quando enfim parei, dei uma olhadela fugaz ao redor. Meu Deus! Como poderia? Havia corrido como se o mundo atrás de mim estivesse desabando num abismo sem fundo e agora tinha chegado ao mesmo lugar de onde saíra! Encontrava-me no mesmo lugar, mas, de certo modo, estava tudo mudado.


Era uma casinha simples, porém aconchegante, na qual em tempos passados eu tinha guardado todos os meus sonhos. Entrei. Ainda estavam todos lá. Encobertos sob densa camada de poeira. Fitei aquelas figuras rotas e chorei. Dera-se que eu as abandonara. Deixara a porta aberta e fugira correndo. E por aquela porta passaram ladrões, vagabundos, desterrados. Ficaram por lá tempo que os convinham, pra logo depois, quando usados meus sonhos, irem embora.


O que aconteceu?


Fincada na vastidão daquela terra inóspita eu tinha feito morada. Com cercas brancas e um balanço, uma horta e uma chaminé, que me protegiam dos espinhos daquela terra árida. Cuidava da grama, recolhia as folhas caídas da mangueira, colhia os frutos tenros que me saciavam a fome. Aquilo tudo me cativara. Cresci sem olhar para além da cerca. Tinha orgulho da minha morada.


Aí, tornei-me homem. Enchi meu peito com a arrogância típica dos homens. Empinei o nariz, levantei a cabeça, alarguei os ombros, e me senti maior e mais forte que todos. Meus braços pareciam poder agarrar o mundo e vira-lo ao avesso. Olhei aquela vastidão toda que nunca havia me interessado e senti tentado a conquistá-la. Amolei os punhos, chutei a cerca, e num ímpeto brandi-me mundo afora. Nem ao menos dissera adeus.


Mas lá fora, com o coração desprotegido, o peso do mundo envergou-se sobre minhas costas. Fez tamanha pressão que me jogou ao chão. Vencera-me sem nenhum esforço. Havia me precipitado. A arrogância cegara-me. E lá, sozinho na escuridão, percebi enfim que só me sentia forte porque tudo aquilo que construíra, que cuidara, que cativara, dava-me forças. Os sonhos que havia forjado ao pé da minha morada incentivavam-me. Mas deu-se que eu me achava Deus e não homem e, portanto, perdera os dentes num único tapa.


O que aconteceu?


Então, corri. Sem saber pra onde ia. Havia também apagado da memória o seio de onde viera. E quando eu parei, estava lá novamente. Mas tudo havia mudado e minha morada já não era mais minha. Ela nunca poderia ter-me esperado. Mudara-se. E os sonhos ficaram encobertos sob o pó. E a grama estava desgrenhada. E a lareira entupida. E a mangueira velha e sem frutos.


Sentei-me no balanço e lembrei, senti saudades e chorei, como nunca havia chorado antes.
Com muito amor e saudade...
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