quinta-feira, 12 de junho de 2008

Sobre o silêncio

É bom ficar ouvindo o silêncio. Poder perceber cada decibéis de absolutamente nada. Tudo que não se escuta usualmente gritando dentro de uma bolha, torna-se mensagem clara e límpida ao toque do silêncio. Harmonia leve como pluma ao vento. Vácuo. Vez ou outra se escuta um estampido. Logo percebe-se ser nada mais do que ilusão sonora, efeito devida à abstinência da balburdia do som vulgarizado da vida cotidiana. Buzinas sobressaem aos motores, que abafam conversas de botequim, que se misturam à revoada das pombas, que se confundem aos gritos do mercado, que embaralham os noticiários das rádios e que, por fim, esconde a face lamuriosa do menino da rua.

Pernas atravessam o ar sentido à bola. Cortam-na como faca sentido ao gol. Braços voam rumo a bola e abraçam o ar. É gol! Silêncio... Não se poderia presenciar essa cena com o sentido dos ouvidos? Ouvir o som do ar sendo fatiado a cada golpe dos jogadores? Do impacto entre os cortes?


Cães ladram. Um carro passa a milhão por hora, inconseqüente, queimando pneus e neurônios por hora. Enquanto a senhora de preto na esquina não emite sinal algum, tampouco esboça reação. Ela ouve apenas seus passos. Nada mais que passos, e seus pensamentos confusos já silenciaram diante da vida rumorosa. O Estrondoso ruído da sua juventude agora não passa de um tênue murmúrio ao vento. Ela, pois, não fala, permanece em silêncio.


Sem ver, posso perceber. Um bar, esquina a fora. Muita conversa, discussões, presunção e altivez camuflada sob camadas e mais camadas de fetichismo libidinoso. Aqui os silêncios são gritantes e estridentes, mas inaudíveis para além dos ouvidos embriagados. O silêncio não diz nada quando escutado, e sua beleza só é tocada por aqueles maníaco-depressivos encharcados de medos, nos quais a veia pulsa solidão. Esses não falam, escutam, e o silêncio lhes prestigia com mentiras, mitigando-lhes auto-complacência enquanto desmaiam alcoolizados no balcão. Tapa na cara. Estampido. Beijo na boca. Grito na orelha. Estrondo. Sussurro ao pé do ouvido.O samba. Toca de fundo a minha morada. Posso ouvi-lo seco, insosso, como que mergulhado num mar de pensamentos: os meus. Rítmico cenário para pensamentos grosseiros. Me absorto em devaneios dos mais depravados, os quais o samba só me fazem embevecer. Estou em transe, em êxtase.
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